No texto "Performance e teatro: poéticas e políticas da cena contemporânea" de Eleonora Fabião, define-se bem essa questão. Ela que é "professora Adjunta e Coordenadora do Curso de Direção Teatral da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, é Doutora em Estudos da Performance pela New York University (2006), Mestre em Estudos da Performance pela New York University (2001) e Mestre em História Social da Cultura pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1996). Possui graduação em Artes Cênicas pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (1989) e em Comunicação Social pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1989). Trabalha principalmente com os seguintes temas: arte da performance, estudos da performance, direção teatral, arte do ator, dramaturgias do corpo e dramaturgia experimental contemporânea."
Segue abaixo um fragmento do texto:
Sugiro que podemos encontrar em
programas performativos alguns elementos dramatúrgicos discerníveis. Porém, veja-se bem,
restrinjo-me a apontar tendências gerais, pois
considero vão, mesmo equivocado, qualquer esforço no
sentido de definir o que seja “performance”.
Trata-se de um gênero multifacetado, de um
movimento, de um sistema tão flexível e aberto que
dribla qualquer definição rígida de “arte”, “artista”,
“espectador” ou “cena”. Como a performance indica, desafiar princípios classificatórios é
um dos aspectos mais interessantes da arte contemporânea. A suspensão de categorias
classificatórias permite o desenvolvimento de “zonas de
desconforto” onde
sentido se move, onde espécimes ontológicos híbridos, alternativos e sempre provisórios podem se proliferar. Porém,
é preciso frisar: não se trata de um elogio à
falta de clareza, de fetichisar o misterioso,
muito pelo contrário: trata-se simplesmente de
reconhecer e investigar a extrema vulnerabilidade
dos ditos “sujeitos” e “objetos” e torná-la
visível. Dito isto, consideremos algumas tendências
dramatúrgicas na performance:
1) o
deslocamento de referências e signos de seus habitats naturais (como quando
a cela
da prisão ocupa o apartamento/studio do
artista); 2) a
aproximação e fricção de elementos de distintas naturezas ontológicas (como
quando a cirurgia plástica, o set cirúrgico e o
corpo cortado tornam-se públicos e cênicos); 3) acumulações, exageros e exuberâncias de todos os
tipos (como quando um pote de maionese custa
100 dólares); 4) aguda
simplificação de materiais, formas e idéias num namoro evidente com
o minimalismo (como quando uma barra de
gelo e o empurrar são suficientes); 5) a
aceleração ou des-aceleração da experiência de
sentido até seu colapso (como quando se mastiga e se
engarrafa um clássico da crítica de arte); 6) a
aceleração ou des-aceleração da noção de
identidade até seu colapso (ou até que um espectador
queira fazê-la puxar o gatilho); 7) o
desinteresse em performar personagens fictícios e o
interesse em explorar características próprias
(etnia, nacionalidade, gênero, especificidades corporais), em exibir seu tipo ou estereótipo social
(ou convidar transeuntes para que apalpem seus seios através das cortininhas de uma maquete
de palco italiano); 8) o
investimento em dramaturgias pessoais, por vezes biográficas, onde
posicionamentos e reivindicações próprias são publicamente performados (como o sexo anal com um pênis-barbie); 9) o
curto-circuito entre arte e não-arte (sempre); 10) o
estreitamento entre ética e estética (sempre); 11) a agudez
conceitual (muita); 12) o
encurtamento ou a distensão da duração até limites extremos (como
quando uma única ação dura um ano inteiro) e a irrepetibilidade (como quando uma ação única é tudo); 13) a
ritualização do cotidiano e a desmistificação da arte (como quando alguém come um doce, cheira o mar ou paga uma
conta atrasada a pedido de um exilado e exibe
fotos dessas ações numa galeria); 14) a ampliação
dos limites psicofísicos do performer (seja
se desfigurando ao feder abjetamente em espaços
públicos, ou subindo uma escada de laminosos degraus); 15) a ampliação
da presença, da participação e da contribuição dramatúrgica do espectador (que por vezes se vê diretamente
implicado na ação).
Estrategicamente, a performance escapa
à qualquer formatação, tanto em termos
das mídias e materiais utilizados quanto
das durações ou espaços empregados. Como sugere Eduardo Flores (o homem mexicano que
comemorou seu aniversário com bolo e enfeites na calçada) numa acertiva propositalmente generalizante, “a matéria da performance é a vida,
seja do espectador, do artista, ou ambas”. A arte do performer, eu arrisco, trata de evidenciar
e potencializar a mutabilidade e a vulnerabilidade do vivo e da vivência."
Referências:
- http://www.universidadedasquebradas.pacc.ufrj.br/o-que-e-a-performance-com-eleonora-fabiao/
- http://www.revistas.usp.br/salapreta/article/view/57373
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