terça-feira, 19 de agosto de 2014

Fernando Velázquez

Performance audiovisual Acidente de Fernando Velázquez (artista uruguaio radicado no Brasil há 15 anos) e do espanhol Francisco La Petina, que fala sobre a relação cultural do Uruguai com o sul do Brasil e o norte da Argentina. 

http://www.revistabrasileiros.com.br/
Brasileiros:  Por que o nome da performance é Acidente?
Fernando Velázquez:  A performance trata a fronteira do Uruguai como da geografia ampla, da geopolítica. Se você for pensar toda aquela região do continente tem uma unidade cultural. O imaginário dos pampas, do chimarrão, do churrasco. É algo que permeia a cultura do gaúcho, aí também no sentido amplo da palavra.

José Roberto Aguilar é do mundo

“A minha arte não é pop, é cor, realismo fantástico, realismo mágico, um figurativismo abstrato… Não importam esses rótulos.” 

Trecho do texto: "Um planeta chamdo Aguilar - de Tânia Rabello
publicado em 12 de março de 2014
http://www.revistabrasileiros.com.br/2014/03/12/um-planeta-chamado-aguilar/#.U_OlrfldXPQ

José Roberto Aguilar é do mundo. Esse ser essencialmente performático, explorador da arte em suas várias formas, seja ela pintura, escultura, videoarte, música, literatura, teatro e as provocativas (e inesquecíveis, para quem teve a oportunidade de presenciá-las) performances, vem deixando sua marca por onde passa. Isso em São Paulo, onde nasceu, em 1941, no Rio de Janeiro, em Buenos Aires, Paris, Londres, Nova York, Japão (país que o inspirou na videoarte, da qual foi pioneiro no Brasil) ou em outras partes do planeta, tomando como pares artistas com o mesmo espírito provocativo, como o cantor e compositor brasileiro Jorge Mautner (que conheceu ainda no ginásio e fundou o grupo Kaos, multiartístico), Gilberto Gil, Caetano Veloso, o artista plástico Ivald Granato, e os videoartistas Nam June Paik e Dennis Oppenheim.
Desde que despontou na cena artística brasileira, no início dos anos 1960, esse estudante de Economia extremamente apaixonado pela literatura – sempre pensou que seria escritor – nunca mais passou despercebido, transitando entre um suporte e outro com absoluta espontaneidade explosiva. Inclusive nos livros, que por fim escreveu. “Todas as linguagens convergem numa só vertente, e essa vertente é a criação”, pontua o artista em documentário feito por Luiz Claudio Lins para a série Encontros, do Itaú Cultural.
Aguilar e performance são palavras quase sinônimas. Elas ganham força na vida do artista nos anos 1970, sendo profusas em críticas sociais e ao establishment cultural. Em Mitos Vadios, por exemplo, um grande happening coletivo organizado por Ivald Granato, Aguilar e artistas do calibre de Hélio Oiticica e Claudio Tozzi, entre outros, faz-se uma severa, porém bem-humorada, crítica à I Bienal Latino-Americana, no fim de 1978, e cujo tema era Mitos e Magia. “O samurai do I Encontro Internacional de Videoarte desembainha agora sua espada contra omissão cultural, bom gosto, pacote cultural, crítica colonizada e esnobismo – os ‘demônios’”, descreve Solange Lisboa no livro sobre o artista. Na ocasião, Aguilar, o “samurai”, duelou com o próprio curador da mostra, Carlos von Schmidt, que, para espanto de seus pares, topou comparecer ao estacionamento da Rua Augusta, 2.918, onde seria realizado o happening. Aguilar, com uma espada de verdade, e Von Schmidt, com uma espada imaginária, duelaram por alguns minutos, com Aguilar gritando “Banzai, banzai!”, e ouvindo em troca algumas outras palavras em japonês.
O que enraizou na década de 1970 fortificou-se, e o resultado foi uma profusão de performances que culminaram com o arrebatamento de multidões ansiosas para acompanhar o artista. Na Pinacoteca do Estado de São Paulo, por exemplo, em Concerto para Piano de Cauda, de 1980, Aguilar toca piano com luvas de boxe, extintores de incêndio e cítara – ocasião que significou o embrião da Banda Performática, criada em 1981, outra das vertentes de expressão artística e que agitou as noites paulistanas na época, em templos underground, como o Radar Tan-tan e Lira Paulistana. O maior sucesso da banda, Você Escolheu Errado o seu Super-herói, ganhou o País na interpretação das Frenéticas. Em outra performance emblemática, Anti-Christo (em alusão ao artista búlgaro, que embrulhou monumentos, pontes e praias), Aguilar, literalmente, desembrulhou o Museu da Imagem e do Som – MIS, na capital paulista, coberto por centenas de metros de plástico preto, durante a abertura do IV Festival Vídeo-Brasil, em 1986.
Já em 1989, arrasta mais de 15 mil pessoas e 300 artistas – entre eles, Ivald Granato, o diretor teatral José Celso Martinez Corrêa, o cantor e compositor Arnaldo Antunes, Jorge Mautner e o ator Sérgio Mamberti – ao Estádio do Pacaembu para participarem da megaperformance A Revolução Francesa, com Aguilar no papel de Voltaire. Um dia antes, no ensaio geral, atores e participantes marcharam na Praça Charles Miller, onde fica o Pacaembu, convidando a população para participar do evento, ao que foram prontamente atendidos. “Eu me manifesto através de uma celebração. Todas as minhas atividades são uma celebração. Uma coisa que celebra, basicamente. Sempre é em relação a um tesão pela vida”, define a forma de agir José Roberto Aguilar.


Verbo, um projeto para além das performances

Idealizado pela Galeria Vermelho, a mostra é um espaço garantido para o corpo enquanto arte

"Delírio e performance são fenômenos estreitamente ligados. A sociedade projeta no corpo o seu próprio espírito. O público de uma performance não precisa decifrar nada. A magia tem o poder de evocar algo que sempre está além da percepção e tal metabolização pode se dar no caldeirão onde “ferve” a ação. A Galeria Vermelho, fundada em 2002 por Eduardo Brandão e Eliana Finkelstein, tem provocado a progressiva imersão de um público cativo das performances, dando a chance a esses jovens frequentadores alargarem a lógica poética e se abrirem para uma imaginação analítica. Tudo orquestrado pela mostra de performance VERBO, uma das ações mais duradouras do sistema de arte e dirigida por Marcos Gallon. A VERBO, que comemora 10 anos, até sua 7edição, ocorria em uma semana em julho, mas, ao se consolidar foi integrada à agenda de exposições. Para marcar o feito, a Vermelho, uma espécie de oráculo que detém a chave do código secreto dos “rituais” visíveis e invisíveis, organiza uma grande exposição. O evento, que ocorre de 15 de julho a 9 de agosto, movimenta, sob o olhar retrospectivo e reconstrutivo da evolução da performance, vários artistas brasileiros e estrangeiros. Não há distância entre programa e ação, muito menos entre concepção e realização. As performances não tentam fazer arte. São arte.

Com a mostra comemorativa, Gallon quer discutir questões relacionadas às práticas de documentação, registro de ações e de performances, por meio de fotos, vídeos, partituras e proposições. As sucessivas apresentações da VERBO parecem ter incorporado o “selo” do tempo, e ir à Vermelho converteu-se em um rito para uma legião de admiradores. Para eles, a galeria também preparou uma exposição de fotos e vídeos, além da 3a edição do seminário Verbo Conjugado, com quatro mesas movimentadas por especialistas de várias áreas e mediadas por Gallon.
A ponte que une, de maneira transcendente, o artista e o espectador é a magia prática e não teórica, como também entende o curador dessa “viagem”. Gallon tem formação em dança, mas está atento a todas as áreas e fala da performance como potência de um ato criativo e não o simples ato em si.
As dezenas de performances programadas têm um raio de ação amplo e a introdução de ferramentas tecnológicas, como programas de computador e aparatos que ampliam os limites do corpo estão na performance/instalação Voice Over (2014), da dupla Detanico Lain. Entre vários outros, há novos campos contemplados, como a pesquisa sobre as possibilidades e limites da linguagem que surge em The Writer (2014), de Maurício Ianês, e em Modelo Vivo (2014), de Fabio Morais.
A performance pode ser paixão, mas também é mercado, afinal a galeria é uma instituição privada. Gallon fala da dificuldade de vender uma performance no Brasil. “Até hoje só conseguimos comercializar uma delas. Esse tipo de obra, para um colecionador, é complexa, tanto na manutenção como na realização.” Vender uma performance era uma hipótese que nem passava pela cabeça de um artista na década de 1980, em pleno boom desse segmento de arte. Parece que na época todos estavam sob a pressão de um imperativo superior. Não se podia sobreviver sem os “jogos” proporcionados pelas performances, nem nos privarmos dos encontros com os ânimos “selvagens” de artistas como Roberto Piva, Hélio Oiticica, Granato, Roberto Aguilar, Nelson Leirner.
Na história das conquistas das performances, o artista convive com as circunstâncias que o rodeia. Em época de ditadura, os espectadores deveriam ser comedidamente “inocentes” e duplamente “perversos”. Olhando pelo retrovisor, a performance alargou suas bordas, partindo de suportes que tinham o corpo como entorno e significação, passou para explorações do matérico e hoje desemboca em experimentações que fazem uso de outros entornos, a desmaterialização do objeto, a criação da cena virtual e dos mais diversos suportes e mídias.
Em 2016, a performance faz 100 anos e o brilho que iluminou o Café Voltaire, em Zurique, em 1916, ainda nos chama ao delírio."

PIPA 2014 - Ronald Duarte

https://www.youtube.com/watch?v=GDArVzORUb0#t=66

Sobre o artista
Mestre em História da Arte com habilitação em Linguagens Visuais, pela UFRJ, Rio de Janeiro, RJ.
Nos últimos 20 anos participou de importantes exposições e eventos culturais no Brasil e no Mundo.
Faz sua primeira individual em 1999 no IBEU de Copacabana, Rio de Janeiro, RJ, em seguida em 2000 expõe no Museu Nacional de Belas Artes, Rio de Janeiro, RJ; em 2001 e 2002 ganha o Prêmio Interferências Urbanas em Santa Teresa, Rio de Janeiro, RJ, com os trabalhos “O Que Rola Vc Vê” e “Fogo Cruzado”; em 2004 ganha da Funarte o Prêmio Projéteis em Arte Contemporânea e realiza pela primeira vez o “Nimbo//Oxalá”; em 2005 apresenta o “Fumacê do Descarrego” no Ano do Brasil na França no evento Nuit Blanche em Paris, França; em 2006 ganha o Prêmio Marcantonio Vilaça – Funarte com a série de vídeo “Guerra é Guerra”; em 2007 interfere no Museu Imperial de Petrópolis, RJ com o trabalho “Funk da Coroa Imperial” “O Museu como lugar”, Petrópolis,­ RJ; em 2008 ganha o Prêmio Iberê Camargo, apresentando a Performance “Alvo Fácil” na Cidade do Porto, Portugal, Fundação Serralves, Portugal; em 2009 convidado a participar da 10ª Bienal de Havana, Cuba com o trabalho “Nimbo//Oxalá”, que será apresentado também na 2ª Bienal do Fim do Mundo, Ushuaia,­ Patagônia, Argentina; no mesmo ano propõe uma guerra civil em Paint Ball no Museu Het Domain, Sittard, Holanda; em 2010 participa como convidado da 29ª Bienal de São Paulo, SP, e participa da exposição Afro-Modern na Tate Galery, Liverpool, Reino Unido, essa mesma expo foi para o Centro Galego de Arte Contemporânea, Santiago de Compostela, Espanha; em 2011 ganha o Prêmio da Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro, RJ, apresenta o trabalho “Peito de Aço” é convidado pra fazer a Abertura da Art Basel, Miami, EUA e em seguida representa o Brasil na Europália, Bélgica, no mesmo ano partcipa da 4ª Bienal de Porto Santo, no arquipélago da Madeira, Portugal, apresentando o trabalho “O Brilho dos Olhos”; em 2012, Ano do Brasil em Portugal, é convidado como curador e artista no projeto “Tranza Atlântica” em Guimarães, Portugal, Capital Cultural Européia; em 2013 é convidado a participar da Feira do livro de Frankfurt no Ano do Brasil na Alemanha; em 2014 apresenta “Matadouro/Boiada de Ouro”, no Neuen Berliner Kunstverein, Berlim, Alemanha.

"Nimbo Oxalá", 2011, Arpoador, Rio de Janeiro, RJ, foto de Gabriel Amorim

"Matadouro/ Boiada de Ouro", 2014, Berlim, Alemanha, foto de Ronald Duarte

"Estrela de Luz", 2011, Cuba, foto de Lourival Cuquinha


Pisando em ovos, 3.200 ovos, Brasília, 2005 foto: Sandra Guerra

Paintball, performance no Museu Het Domein, Sittard, Holanda, 2009 foto: Daniel Van Hauten

Referências:
http://www.pipa.org.br/pag/ronald-duarte/
http://www.ronalduarte.com/

Um corpo coletivo reagindo esteticamente à cidade

Ronald Duarte: Um corpo coletivo reagindo esteticamente à cidade
(artigo por André Leal publicado no site Arte ConTexto)
Neste começo de século a maior parte da população mundial vive em cidades, sob condições precárias que as afetam das mais variadas maneiras. Um ambiente que nos circunda, mas que não controlamos, que atravessa nossos corpos como indefiníveis pulsões de vida, de morte, de desejo, de choque. Como traduzir esteticamente uma matéria assim concreta – mas ao mesmo tempo abstrata, já que por suas dimensões é incomensurável para os cidadãos – e mutante, em constante transformação em seus mais variados níveis, seja em suas características físicas propriamente ou em seus modos de vida, de uso de seus espaços, de convivências, de violências etc.?
Muitas foram as propostas artísticas nos últimos dois séculos que buscaram traduzir poeticamente a experiência urbana, uma das principais marcas da modernidade ocidental. Neste começo de século 21, no entanto, as contradições da cidade capitalista parecem estar mais expostas do que nunca. No Brasil, em particular, isso se relaciona diretamente com as transformações sociais da última década, como as “jornadas de julho de 2013” demonstraram. Visceral como a vida na cidade é o trabalho do artista carioca Ronald Duarte, que irradia de seu ateliê, rituais e convivências ativadoras dos espaços – violentos – da cidade contemporânea.
O artista se refere à sua produção como “uma única performance”, que se efetiva de diferentes maneiras a cada situação proposta e que muitas vezes destina-se a mostrar ao “poder público o que ele não mostra” (DUARTE, 2014, p. 100). No auge de uma guerra entre facções rivais do tráfico de drogas, em tempos anteriores às UPPs (Unidades de Polícia Pacificadora) , Ronald Duarte lavou as ruas do bairro carioca de Santa Teresa com água vermelha, como que a replicar a violência que acontecia na porta de sua casa. As reações das pessoas na rua, que podem ser vistas no vídeo da ação O que rola você vê (Banho de Sangue) (2002), demonstram como esta intervenção despertou na população da região uma reação muito mais forte do que os próprios corpos baleados que se espalhavam pelo bairro na época. Assim, o artista apontava não somente para aquilo que o poder público deseja esconder da sociedade, mas também para a própria sociedade que assiste passiva às atrocidades que ocorrem nesse ambiente e que, no entanto, se incomoda com uma atuação que ressignifica esteticamente essas mesmas atrocidades. Um duplo efeito que é difícil de se prever, mas que parece ser comum na produção de Duarte.
Outro trabalho do artista que interfere na indiferença do pedestre com as mazelas urbanas que trazemos naturalizadas é A sangue frio (2003), quando espalhou pelas calçadas do centro do Rio de Janeiro pedras de gelo com corante vermelho embrulhadas em cobertores de feltro como os usados por moradores de rua. À medida que o gelo ia derretendo o corante se espalhava pela calçada como se ali dentro houvesse uma criança de rua ferida. Esta ação se remete diretamente às Trouxas Ensanguentadas que Artur Barrio espalhou pelas ruas do Rio de Janeiro e no Parque Municipal de Belo Horizonte entre o fim de 1969 e o começo de 1970. Essas trouxas continham diversos materiais orgânicos e industriais e ‘sangravam’ (pela presença de pedaços de carne entre seu conteúdo) no espaço urbano. Colocando-se como embrulhos contendo pedaços de corpos torturados e mutilados, expunham a violência perpetrada pela ditadura militar contra a população.
Em tempos de democracia, o trabalho de Duarte atualiza o impacto da violência urbana com suas próprias “trouxas”. Uma sociedade que, apesar de eleger seus representantes, ainda segue sendo extremamente desigual, com crianças abandonadas à própria sorte vivendo nas ruas e nelas sofrendo os mais diversos tipos de violência. Uma sociedade que ainda não está disposta a discutir as arbitrariedades cometidas durante a ditadura e que perpetua seus modos de atuação, torturando suspeitos e realizando prisões arbitrárias principalmente de pretos, pobres e favelados, por meio de uma política sistemática de extermínio que coloca todos sob suspeita antes de provarem suas inocências – principalmente aqueles mais vulneráveis socialmente como as crianças de rua. Uma sociedade que ignora tais desmandos e chega a negar os direitos básicos ao bem-estar que todos deveriam gozar e que, literalmente, passa por cima de corpos envoltos em cobertores abandonados ao azar das ruas, anestesiados que estamos todos pela desigualdade estrutural que sustenta o capitalismo tupiniquim. Duarte mais uma vez aponta para essa ferida social e urbana e chama a atenção, pelo ‘sangue’ que escorre de seus cobertores, para nossa indiferença em relação àqueles com quem convivemos neste ambiente que é, afinal, de todos.
Outra ação coordenada pelo artista, que colocou fogo em Santa Teresa, foi Fogo cruzado (2002), que também aconteceu no auge dos conflitos entre as facções do tráfico no bairro. 26 pessoas se reuniram sob o comando de Duarte e encheram de estopas com querosene cerca de 1,5 quilômetro dos trilhos do famoso bonde que cruzava o bairro e atearam fogo nelas. A ação também gerou as mais diversas reações por parte da população e do poder público, expondo mais uma vez o fogo cruzado ao qual o bairro estava submetido e a passividade de todos perante este ‘estado natural’ das coisas. O trabalho coletivo é uma das características mais marcantes da atuação de Ronald Duarte, como fica claro nesta ação. O artista serve como um propositor de práticas que serão realizadas por indivíduos singulares em meio à multidão criativa. Assim, o conceito de multidão elaborado pelos filósofos Antonio Negri e Michael Hardt (HARDT; NEGRI, 2005) é importante tanto para se apreender as implicações do trabalho do artista como para compreender sua origem e potência, já que o próprio Duarte frequentemente se refere à ideia das singularidades potencializadas pelo poder criativo da multidão como motor de suas proposições.

Por fim, outro trabalho essencialmente colaborativo que Duarte orquestrou em diversas oportunidades é Nimbo oxalá. Um grande círculo de pessoas que disparam simultaneamente extintores de incêndio e criam uma grande nuvem branca que irá tomar direções imprevisíveis de acordo com a situação específica do lugar, que pode ser a favela da Rocinha, os pilotis do Palácio Gustavo Capanema ou os jardins do Parque Lage. Esta ação, um ‘ritual’ de caráter mais diretamente poético, traz como resultado a interferência da multidão na formação da subjetividade contemporânea como chave para uma atuação mais desimpedida em meio às exigências impostas pela sociedade de consumo espetacular. Pode ser também uma das respostas à pergunta colocada no início do texto. Uma possível maneira de reagir aos fluxos da cidade e de ressignificar seu espaço, permitindo que germine a semente de subjetividades mais críticas e autônomas que possam colaborar ativamente na construção deste que é o maior artefato da construção coletiva da sociedade moderna, a cidade.

Mar de amor

MAR DE AMOR - Ronald Duarte (2013)


"Dia 30 de novembro de 2013, o artista plástico Ronald Duarte criou uma obra no mar de Arpoador chamada “o mar de amor”, para denunciar a violência no Rio de Janeiro. Também tinha cartazes para denunciar o “perigo” do preconceito."
(http://apublica.org/2014/03/morri-na-mare-assista-ao-minidoc/morrinamare_0-3-red/)

http://premiopipa.com/wp-content/uploads/2014/05/Mar-de-Amor.jpg
http://image1.frequency.com/uri/w354_h200_ctrim_ll/_/item/1/3/5/3/MAR_DE_AMOR_Ronald_Duarte_135364510_thumbnail.jpg



quinta-feira, 14 de agosto de 2014

O espaço da cidade não é território neutro

Nome do autor: 
Prof. Dr. Felipe Scovino

Instituição: 
Departamento de Teoria e História da Arte da Universidade do Estado do Rio de Janeiro

Título do trabalho:
Ironia e in(ter)venções: outros olhares sobre a cidade 

Resumo do trabalho: 
O espaço da cidade não é território neutro. Nossas escolhas sobre onde viver, trabalhar, conviver e se mover dentro da cidade, são predeterminadas por forças poderosas que governam a economia e a política da qual participamos. A vastidão e a superpopulação das cidades de hoje exigem a aderência a algum sistema de ordem, seja ele real ou percebido. Que essa tentativa de estabelecer a ordem, dentro da densidade e através das diferenças, se manifeste no isolamento e
na contenção dos bairros centrais ou periferias, ou nas câmeras de segurança e nos portões das propriedades privadas. Artistas como a dupla Felipe Barbosa e Rosane Ricalde, Ronald Duarte, Renata Lucas e Ducha se apropriam do espaço urbano do Rio de Janeiro e imaginam um espaço onde essas barreiras desabam, onde a possibilidade de desconstruir essas fronteiras, ainda que com o simples gesto simbólico de “pavimentar” uma rua, por exemplo, pode resultar numa
dinâmica social diferente, por mais temporário que seja.


"... Os trabalhos que serão comentados nesse ensaio transmitem à arte uma potência capaz de influenciar o comportamento e desafiar, por meios de dispositivos que dialogam com a ironia, um modo de vida, administrando doses de espetacularização, estranhamento e um pouco de liberdade violenta porque os sentimentos humanos são perversos e em permanente crise com a ordem do mundo. Em relação a esses conceitos de paisagem urbana e também ressaltando a prática da analise do sistema de poder e controle foucaltiano discutindo a cidade como força geradora, uma força ativa e transformadora que determina uma nova política, o trabalho da dupla Felipe Barbosa e Rosana Ricalde é uma reinvenção crítica da maneira como nosso ambiente construído determina ações, comportamentos e relações sociais, e por extensão, a dependência da sociedade em relação à preservação de definições pré-estabelecidas de espaço, propriedade e ordem."
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