sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Mentira Repetida

Existe uma natureza comum à obra de Rodrigo, a que expressa através de seu corpo um sentido de insuficiência em frente aquilo que não se supera tão pouco se esquece ou abandona. O esforço que ele repete define seu corpo como o território da dor que se representa inumana. Carne, terra, partes que nos entrega um grito como expressão de que somos dor no limite de um corpo que age e sente, entre a consciência e o que é falta no mundo vivo, na imprecisão entre ser e existir. Sua performance figura-se no transporte tátil entre a criação e o que subverte os limites próprios de quem gritou. O grito em quem ouve é seu negativo silêncio, a decalagem entre o vivido e a cena, o abismo que é arte no gesto que dura em sentido póstumo.”O homem é uma corda atada entre o animal e o além-do-homem: uma corda sobre o abismo. Perigosa travessia, perigoso caminhar, perigoso olhar para trás, perigoso parar e tremer. O que é de grande valor no homem é o fato de ser uma ponte e não um fim”(Nietzsche). Nesta obra, a dor parece se traduzir no timbre de um corpo insuficiente. O grito surge em uma paisagem e parece um teatro épico; dura um pouco mais e se torna insistência; falta fôlego ao corpo e o grito se torna angústia. O choro tenta contê-lo e o grito se abre na deiscência que germina a dor que o artista diz que sente. “Experiência é algo que age em nós quando agimos, como se fôssemos agidos no instante mesmo em que somos agentes” (Marilena Chauí). O grito esgota o corpo que sente.




Fonte:

http://paratyemfoco.com/multimidia/rodrigo-braga/

quinta-feira, 3 de setembro de 2015

Rodrigo Braga

Nascido em Manaus, em 1976, viveu em Recife, onde se graduou em Artes Plásticas pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), e depois se radicou no Rio de Janeiro. Possui obras nos acervos do Museu de Arte Moderna do Rio (Coleção Gilberto Chateaubriand), no Museu de Arte Moderna de São Paulo, no Museu de Arte Moderna Aloisio Magalhães (MAMAM) de Pernambuco, no Museu de Arte Contemporânea do Paraná e na Maison Européene de La Photographie de Paris, entre outras instituições.
Seu trabalho transita entre a performance, a fotografia e o vídeo, onde frequentemente se coloca como personagem principal de sua obra, que tem uma forte relação com a natureza. Braga participou das últimas edições da Bienal Internacional de São Paulo e da Bienal de Cerveira, em Portugal. Em 2012, venceu o Prêmio Pipa de Artes Visuais na categoria Voto Popular Exposição. Desde o fim de agosto e até o final do mês de outubro, Braga realiza Residência Artística no instituto RU, no bairro do Brooklyn, Nova York.

terça-feira, 1 de setembro de 2015

Performance, Antropofagia, Abramovic


Revista Performatus - Ed. 6
Ano 1 
Número 6
Set 2013
Texto apresentado em Mesa Redonda que acompanhou o evento Balkan Erotic Epic [Épico Erótico dos Balcãs] de Marina Abramović (palestra, exposição, instalação) realizado no SESC Pinheiros em 2006. Da mesa também participaram Fabio Cypriano e Naira Ciotti.
O título acima procura sintetizar, em três palavras-chave, alguns dos eixos sobre os quais estará construído este ensaio. Na história da performance, o trabalho de Marina Abramović tem uma localização singular, muito embora seja frequentemente assimilado ao juízo classificatório de body art. Na performance brasileira, Abramović produziu repercussões que ecoaram principalmente na obra de Renato Cohen, inclusive com referências diretas ao Balkan Baroque [Barroco dos Balcãs]. Neste evento, a presença de Marina, de sua exposição e do making of de Richard Haber, revestem-se de sentido especial para nós. A partir da fundamental leitura de Fulvio Salvadori, é possível compreender a pesquisa atual de Marina Abramović em consonância com o conceito de Antropofagia tal como formulado pelo poeta e artista Oswald de Andrade, entre nós, desde os anos 20. Artistas fundantes da performance no Brasil como Flávio de Carvalho militaram no movimento antropófago e as ideias do manifesto, retomadas nos anos 50 por Oswald de Andrade, apresentam notável proximidade com a perspectiva do trabalho atual da artista. Para desenhar este mapa da “sociedade matriarcal na era da máquina”, faço uso dos aforismos do Manifesto Antropofágico de 1928.

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

O que chamamos de performance?

Lucio Agra
Resumo:
Hans Eijkelboom, Bas Jan Ander,  Jirí Kovanda, Sigurdur Gudmunssun , Techching Hsieh, Robert Filiou, Alan Kaprow. Resumidamente, seriam esses os sete nomes que, na 30ª Bienal Internacional de Artes de São Paulo (2012) representam a performance. Não necessariamente, claro, pois o primeiro artista é um fotógrafo que se interessa, neste momento de sua obra, pelo comportamento dos seres humanos comuns da rua e a forma como seus corpos carregam uma fôrma do vestir “pret-à-porter”. Os brasileiros Sofia Borges e Rodrigo Braga responderiam pelo que mais diretamente pode ser creditado a uma ação do corpo em presença, embora se trate em ambos os casos, novamente, de artistas plásticos que lançam mão – seja pela fotografia, seja pelo vídeo – de estratégias de registro que os levam diante do púbico, enquanto corpos.
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terça-feira, 18 de agosto de 2015

Performer

  PERFORMATUS
    Ed. 14
Ano 3 | N
      14 | Jul
         2015

Jerzy Grotowski

O Performer, com letra maiúscula, é um homem de ação. Ele não é um homem que faz o papel de outro. É o atuante, o sacerdote, o guerreiro: está fora dos gêneros estéticos. O ritual é performance, uma ação realizada, um ato. O ritual degenerado é um espetáculo. Não quero descobrir algo novo, mas algo que foi esquecido. Algo tão antigo que todas as distinções entre gêneros estéticos deixam de ser válidas.
Eu sou teacher of Performer (Falo no singular: of Performer). Teacher – como em qualquer ofício – é uma pessoa por meio da qual o ensinamento passa; o ensinamento deve ser recebido, mas a maneira de o aprendiz redescobri-lo só pode ser pessoal. E como é que o teacher, por sua vez, conheceu o ensinamento? Pela iniciação, ou pelo furto. O Performer é um estado do ser. O homem de conhecimento, podemos pensá-lo relacionando-o aos romances de Castañeda, se gostarmos do romantismo. Eu prefiro pensar em Pierre de Combas. Ou até nesse Don Juan descrito por Nietzsche: um rebelde diante do qual o conhecimento é tido como um dever; ainda que os outros não o amaldiçoem, ele sente que é diferente, um outsider. Na tradição hindú, fala-se dos vratias (hordas de rebeldes). Um vratia é alguém que está no caminho para conquistar o conhecimento. O homem de conhecimento [czlowiek poznania] tem à sua disposição o fazer, o doing, e não ideias ou teorias. O verdadeiroteacher – o que ele faz pelo aprendiz? Ele diz: faça isso. O aprendiz luta para entender, para reduzir o desconhecido ao conhecido, para evitar fazer. Pelo simples fato de querer entender, ele resiste. Ele só pode entender depois defazer. Ele faz ou não faz. O conhecimento é uma questão de fazer.
Tradução de Patricia Furtado de Mendonça
Revisão ortográfica de Marcio Honorio de Godoy
© 2015 eRevista Performatus, Jerzy Grotowski, 1987, 1990 e The Jerzy Grotowski Estate, 2005
Texto completo: PDF

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Política do Impossível

"Coletivo PI - Política do Impossível - O coletivo PI é um grupo de artistas educadores que trabalham na intersecção entre arte, política e educação. O PI neste projeto: Beatriz Falleiros Carvalho Cibele Lucena Daniel Lima Eduardo Consoni Jerusa Messina Joana Zatz Luciana Costa Mariana Cavalcante Rafael Leona 

CARTOGRAFIA POLÍTICA DA AÇÃO COMUM
Supervisão pedagógica da formação inicial do Programa Jovens
Urbanos/Cenpec
Coletivo PI - Política do Impossível 
Junho e julho de 2007

1) D E S F R A G M E N TA R A A Ç Ã O : da experiência de educação ilhada em cada sujeito para um campo comum, entrelaçado de experiências

Uma das preocupações mais persistentes para nós do grupo PI é o reconhecimento e a construção do sentido de grupalidade: o encontro com o “comum” e a busca, a partir daí, de sua proliferação em ações autônomas que possam eventualmente se desenvolver. 
Estabelecer laços sociais, em uma atualidade que cada vez mais fragmenta a vida e perde o sentido de “ser” coletivamente, se torna aqui fundamento e objetivo ao mesmo tempo. Para o desenvolvimento destas relações procuramos criar vínculos que permitam a cada sujeito envolvido “estar de corpo inteiro”, tomados por seus desejos e urgências, trazendo à tona a soma de conflitos macro e micro políticos que compõem cada subjetividade.
 É neste ponto que, para nós, a construção de uma “ Cartografia Política da Ação Comum” - partindo do mapa de São Paulo - pode subverter uma situação de representação estática, imagem internalizada por todos, difícil de romper; pode subverter um “comum habitual, dado”, tornando-se um terreno fértil de “imersão no comum construído, experienciado, vivido”. 
A possibilidade de estabelecer grupos de trabalho que já não sejam amontoados institucionais - onde as hierarquias e a falta de afetação regem as relações - para ir cada vez mais aproximando-se do sentido de grupo, acontece na horizontalidade desta construção do comum, como base para a ação e a criação."

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