quarta-feira, 20 de maio de 2015

Comentários sobre o trabalho em performance

Eletroperformance

A Ciência e a Tecnologia postas a nu. Reinventadas. Usadas como recurso cênico e performático. A discussão vital do mito do progresso científico permeia todo trabalho de Guto Lacaz.
João Pedrosa/HV
Sheila Leiner/Fundação Bienal
Oswaldo Faustino/Diário Popular
Miguel de Almeida/FSP
Data: Junho de 1983
Renato Cohen/Performance como Linguagem
Editora Perspectiva 




Como performer Guto Lacaz destaca-se pelo senso de humor e pelo rigoroso ritmo com que opera o caos emergente de seu palco portátil onde marcam encontro cadeiras elétricas, rádios especializados em sintonizar Vicente Celestino, serrotes em contraponto com espadas de néon, vídeos, super 8, datilógrafas punks escrevendo memorandos para Satã, toca discos digitando nuvens; a alegria pontuando o espaço. Roberto Bicelli/Funarte
Seu trabalho em performance com instalação revela empenho, humor e invenção. O expressivo domínio do tempo, espaço e imagem torna-o compreensível e comunicativo.
... E Lacaz, junto com o grupo que o acompanha, é considerado o mais louco, mais rigoroso, mais equilibrado e detonador de paixões, de todos os performáticos que estarão presentes na Funarte, nestes dois dias.
...O criativo Guto Lacaz fez genial performance ao lado de Cristina Mutarelli no West Bar Ponderosa. Os ingressos custaram mil cruzeiros e deram um feliz prazer.
... De tudo, o que mais me impressionou foi Guto Lacaz / Cristina Mutarelli e a Eletroperformance. O inventor Guto Lacaz, também um lapidador de frases e imagens iconoclastas, teve a perfeição de construir dezenas de objetos para figurar em sua apresentação. Ou de utilizar objetos de uso doméstico como um aspirador de pó. Ele é da idéia de que um objeto de uso cotidiano tirado de seu cenário, e usado em outro contexto, provoca rupturas e atritos. O público assim é chamado a observar detalhes que normalmente nem mais presta atenção.A estrutura da Eletroperformance se baseia na mistura e talvez síntese de todas as mídias. Prevalecia a coisa cênica, mas, antes de tudo sob a estrutura cinética, de quadros e imagens. Guto Lacaz fazia ainda o uso abusado de alguns clichês cinematográficos, mas todos eles sob o ponto de vista critico e iconoclasta. Ele parecia estar atrás do riso ao confrontar detalhes e linguagens. Conseguiu. Mostrou algo importante, em outro aspecto: não é porque o trabalho foi criado, concebido sob uma idéia, que ele perde seu valor de impacto ou de enlouquecimento. Os loucos racionais me parecem os piores. Há quem assine embaixo esta afirmação.

Miguel de Almeida/Primeiramão
Aproximação de um Espetáculo Conceitual A Eletroperformance de Guto Lacaz Local: Ponderosa Bar São Paulo

O local da performance é um café-teatro que tem, no segundo andar, uma pequena sala de espetáculos. A sala é dividida em um pequeno palco e um espaço para o público. O público é de aproximadamente setenta pessoas e a performance acontece somente neste dia, no horário especial das 24 horas. O espetáculo se divide em quadros (num total de 14), cada quadro tendo como base um aparelho elétrico, uma idéia e um clima determinado. O espetáculo é apresentado por dois performers: Guto Lacaz e Cristina Mutarelli. Ambos vestem aventais brancos e usam óculos escuros. À medida que os dois vão mexendo com os aparelhos elétricos, temos a impressão de estarmos diante de um “cientista (criador) maluco“ e sua partner. O espetáculo é multimidiático (utilizase de teatro, cinema, cibernética, plástica, iluminação por néon, etc) e não existe nos performers a preocupação de “interpretação”, a impressão que fica é de sempre estarmos vendo uma demonstração. Os performers, com ironia e principalmente humor, vão mostrando várias possibilidades de utilização dos objetos elétricos (sempre inusitadas, como descreveremos a seguir). Deter-nos-emos em dois quadros da performance que merecem destaque especial: num dos quadros a cena é de um rádio (do tipo antigo, de madeira e luminoso). O rádio é o

personagem único da cena (os dois performers estão fora no momento). À medida que transmite informações bombásticas, o rádio pisca e movimenta-se em cena (grande parte do mérito do espetáculo de Guto Lacaz se baseia na qualidade das engenhocas que este originalmente um artista plástico, constrói. O rádio está encaixado em um trilho que permite a sua movimentação sem que se perceba
isso da platéia). O outro quadro é o do fechamento da performance. Os dois performers estão em cena. A luz de néon os ilumina. A partner segura uma bola de plástico. Uma música clássica, triunfal, anuncia que o gran finale está para acontecer. Guto liga o tubo de ar – um aspirador de pó ao contrário e aproxima suas mãos das de sua partner. De repente, os dois se posicionam em cima do tubo de ar, a bola sobe e fica flutuando a uma certa altura no espaço. O efeito produzido é mágico.
A Eletroperformance trabalha com a dialética tempo-espaço ficcional/tempo espaço real. E justamente o jogo com esses dois tempos, que se dá através de uma brincadeira com a convenção teatral, que faz com que essa performance possa ser apontada como um espetáculo conceitual (na medida em que brinca com os conceitos de convenção, representação, atuação etc. que estruturam a arte teatral). A Eletroperformance funciona como uma demonstração. Fica demonstrado que qualquer coisa interessante pode ser uma cena (como o rádio) e que não precisa haver o fio dramatúrgico nem grandes personagens em cena, para o espetáculo se sustentar. A Eletroperformance caminha sempre à base do anticlímax, da anticena, da antiatuação. Os performers entram e saem de cena e demonstram o uso dos aparelhos elétricos (sempre inusitados) como uma feira de utilidades domésticas: Guto e Cristina entram seguram a bola, olham para o público e de repente o aspirador é ligado e a bola, inusitadamente, fica suspensa no ar. Não acontece nenhuma grande cena, nenhuma grande interpretação.
Fica sempre demonstrado, nessa performance a substituição do eixo de sustentação do teatro convencional (narração / personagem) pelo eixo da performance (live art/performer). O que o performer coloca em cena, no lugar de uma personagem construída, é sua habilidade pessoal (no caso a habilidade de Guto Lacaz de construir as engenhocas e de fundir linguagens). Guto Lacaz centra sua pesquisa no que podemos chamar de uma cenotécnica eletrônica. O espetáculo se enquadra na linha do trabalho formalizado, deliberado. Na Eletroperformance, as cenas (uso dos aparelho) são rigorosamente ensaiadas e cada efeito é milimetricamente calculado.


Fonte:
- http://gutolacaz.com.br/artes/textos/ComentariosPerformance.pdf

terça-feira, 19 de maio de 2015

Eletroperformance

Guto Lacaz


Guto Lacaz

Carlos Auguto Martins Lacaz (São Paulo SP 1948). Artista multimídia, ilustrador, designer, desenhista e cenógrafo. Forma-se em eletrônica industrial pelo Liceu Eduardo Prado, em 1970, e em arquitetura pela Faculdade de Arquitetura e Urbanismo de São José dos Campos, São Paulo, em 1974. É editor de arte das revistas Around/AZ e Via Cinturato. Entre 1978 e 1984, leciona comunicação visual e desenho de arquitetura na Faculdade de Artes Plásticas da Pontifícia Universidade Católica - PUC, de Campinas. Em São Paulo, leciona no Colégio Iadê, no curso de arquitetura na Faculdade de Belas Artes e no curso livre Artur Cole, entre 1981 e 1984. Realiza performances como Eletro-Performance, 1984; Estranha Descoberta Acidental, 1984; O Executivo Heavy Metal, 1987; Espetáculo Máquinas II, 1999, entre outras. Na década de 1990, ilustra os livros Crescente: 1977-1990, de Duda Machado; Num Zoológico de Letras, de Régis Bonvicino (1955); e o Balé dos Skazka's, de Kátia Canton. Em 2005, publica o livro Desculpe a Letra, que reúne desenhos realizados para a coluna da jornalista Joyce Paschowith, no jornal Folha de S. Paulo.
Comentário Crítico
A produção de Guto Lacaz transita entre o design gráfico, a criação com objetos do cotidiano e a exploração das possibilidades tecnológicas na arte, sempre tratados com humor e ironia, como é possível notar em Crushfixo (1974), um de seus primeiros trabalhos, ou em Fuscão Preto no Acapulco Drive-In (1981), no qual, por meio de uma maquete, associa uma canção popular à música de vanguarda do compositor Arrigo Barnabé (1951).

Vários de seus trabalhos relacionam-se ao universo da mídia e do consumo, como Óleo Maria à Procura da Salada (1982), em que uma lata de óleo se desloca em uma bandeja equipada com radares, ou Ono (1991), obra em homenagem ao arquiteto Walter Ono, criada a partir de um embalagem de sabão em pó. Lacaz realiza também grandes instalações, como Auditório para Questões Delicadas (1989), na qual faz uma intervenção no parque Ibirapuera, em São Paulo. Instala, no meio do lago do parque, seqüências de cadeiras, que, por meio de estruturas ocultas, parecem flutuar na água. Em Cosmos (1991), definida pelo artista como uma livre interpretação da mecânica celeste, dispõe, em uma sala escura, pedestais de diferentes alturas, cujos motores elétricos fazem com que pequenas esferas brancas descrevam orbitais que variam em direção, diâmetro e velocidade. Ao percorrer a instalação, o espectador tem a sensação de estar caminhando por entre os corpos celestes.
Guto Lacaz realiza ainda diversas performances, como Espetáculo Máquinas II (1999) ou Eletro Performance (1984), que tem como participantes a atriz Cristina Mutarelli (1957), o arquiteto Javier Borracha e o irmão do artista Nenê Lacaz, entre outros.
Fonte: 

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Incômodo

PERFORMASOM
Neologismo criado pra expressar a vontade de unir duas linguagens da arte: Performance e Som. 
Tenho pensado muito sobre a  imersão que a experiência da performance e da música causam no corpo e na mente humana, de forma até parecida quando comparamos performers e músicos. A fim de atingir uma entrega do público participante e uma superação das resistências da sociedade, vejo o som como forma de cura. 

INCÔMODO
Data: 6/05/2015 
Duração: Flexível a mudanças
Gravação: Thatiana Montenegro

A performance "Incômodo" nasceu pra dar star a essa relação, ela tem como principal objetivo causar o estranhamento das pessoas ao redor. A ação do performer consiste em entrar num espaço de caráter silencioso, onde a maioria se mantém calado, como em elevadores, igrejas ou museus, e acionar um som estridente, ou seja, não esperado por todos. 
"Incômodo" foi realizada dentro dos elevadores da UERJ e entre olhares pude notar o desconforto e desconfiança de muitas pessoas, tirando aquelas que estavam com seus fones de ouvido. 

Começo assim a experiência entre performance e som no corpo e na mente humana. 





terça-feira, 12 de maio de 2015

Volumetria

Performance Volumetria

A ação se resume em acumulações de corpos e movéis que reconfiguram a visão do caos já instaurado. Som, luz e movimento alimentam a visão do desmantelamento...e da recomposição de uma realidade. Nas Volumetrias do mundo, homem e objeto se tornam elementos de composição da existência.



segunda-feira, 11 de maio de 2015

Bancarrotas

Bancarrotas [performance, 2012]
Parque Municipal, Noites Brancas


Duração: 2 horas
Performers: Ana Luisa Santos, Inácio Mariani, Marco Paulo Rolla, Noemi Assumpção, Regina Ganz.
Produção: Fernando Costa.


Cinco aristocráticos exageradamente vestidos e enfeitados com jóias percorrem o Parque Municipal, no centro de Belo Horizonte. Cada um deles tem um saco de dinheiro falso. Eles circulam rindo exageradamente, até encontrarem uma enorme árvore para subir. Do topo da árvore deixam o dinheiro a cair, nota por nota, rindo constantemente.

A performance é uma crítica sobre o quadro social hierárquico - econômica e politicamente - no Brasil. O poder do dinheiro e o comportamento repugnante em relação às pessoas no país.

sexta-feira, 8 de maio de 2015

Dialética do corpo e espaço

DESCRIÇÃO
No início da escadaria do prédio do Paço da Liberdade encontra-se um grande saco de espuma contendo 57 placas de espuma e 57 novelos de lã. Tiro do saco uma placa de espuma e, com um novelo de lã, amarro-o na sola do meu pé. Subo o primeiro degrau da escada e coloco o novelo no degrau. Tiro outra placa de espuma, outro novelo de lã, amarro-o no meu outro pé e subo, carregando o saco, mais um degrau, colocando no novelo no degrau. Para cada degrau que subo, tiro uma placa de espuma e um novelo do saco, amarrando no meu corpo e soltando o novelo em cada degrau. Até o segundo andar do prédio são 56 degraus. Subo cada degrau completando exatamente essa ação. Próximo ao segundo andar, faltando poucos degraus, não consigo mais amarrar as placas, e todos os novelos viraram um grande emaranhado de fios. Pego o saco, visto sobre minha cabeça e subo até o segundo andar. Por conta dos novelos deixados para trás, fico preso à escada. Começo a me movimentar para dar uma volta por trás dela. Quando não consigo mais me movimentar, arrebendo alguns fios de lã presos ao corpo. Quando consigo dar a volta por trás da escada, tiro do meu bolso uma tesoura e começo a descer, dessa vez cortando os fios a cada degrau que desço. Quando chego ao primeiro degrau do térreo, onde começou a performance, corto o último fio de lã, que prende a última placa de espuma ao meu corpo, finalizando a performance
SOBRE A PERFORMANCE
Esta performance foi criada especialmente para o prédio do Sesc Paço da Liberdade. Por ser um prédio histórico e tombado pelo Patrimônio Histórico Nacional, há diversas regras e limites que impossibilitam a execução de performance com os mais variados materiais, por exemplo, água, tinta, pó etc. Este trabalho surgiu exatamente por essa questão, a essa limitação comum em espaços tombados. Pensando em uma ação que ‘protegesse’ o espaço, trabalhei com materiais que não agredissem o mesmo, ou seja, espuma e lã. As cores dos novelos de lã foram retiradas das cores presentes no prédio. 
Como em outros trabalhos, a teleologia da ação aparece como base do trabalho e o fim visado (télos) cada vez mais difícil de ser alcançado conforme desenvolvo a minha ação. Contudo, a ação ganha um novo sentido aqui, um sentido que relaciona meu corpo ao espaço. É a ação que constrói a dialética entre corpo e espaço.

Vídeo:
Fonte: