terça-feira, 16 de setembro de 2014

Performance como linguagem



Renato Cohen
PERFORMANCE COMO LINGUAGEM

Criação de um tempo-espaço de experimentação




"A questão da performance torna-se central na sua manifestação
contemporânea e o próprio campo de estudos amplia-se desde as
manifestações da arte-performance, cuja genealogia e modo de
produção são abordados neste livro, desde as questões da ritualização,
da oralidade, da tecnologia, até as de todo o contexto cultural envolvido
na ação performática e performativa, estudos esses que têm sido
desenvolvidos pela Performance Studies - associação filiada aos
estudos pioneiros de Richard Schechner da New York University." (fragmento)




Guaraci Gabriel



GUARACI GABRIEL

O artista  participa da Bienal com a obra  “O artista que não existe”,
Que pode ser vista em tablets com leitor de Código QR
Fotografia: Divulgação

 TEM FORMIGA NA BIENAL

Yuno Silva (Tribuna do Norte)
  

Montado na garupa de uma formiga imaginária, o sempre inquieto Guaraci Gabriel pegou a estrada rumo ao Sudeste para se integrar à 31ª edição da Bienal de São Paulo, evento de alcance internacional que figura na lista dos três mais importantes do mundo no circuito das artes visuais. Inicialmente Guaraci iria fazer apenas uma participação extraoficial, mas a performance “O Artista que não Existe” acabou integrada a programação e fez do artista o segundo potiguar a participar oficialmente da Bienal paulista – o pioneiro foi Abraham Palatnik, 86, menção honrosa na primeira edição da mostra paulista em 1951 com sua arte cinética.

A proposta de Gabriel é expandir a realidade a partir da leitura de um código QR, impresso nas costas do paletó do artista, que remete quem aponta um smartphone ou tablet (conectado à internet) para outra dimensão, revelando uma paisagem virtual onde se vê a galeria onde acontece a Bienal ocupada pela escultura do formigão de 5 toneladas e 12 metros montada às margens da BR 104 em Queimadas (PB) – para conferir a obra enquanto você lê esse texto, basta apontar o leitor de QR Code de seu equipamento para o desenho nas costas do artista.

Vale destacar que o foco da Bienal deste ano está centrado no “potencial da arte e sua capacidade de agir e intervir”, tirando do centro das atenções as obras de arte em si para valorizar a criação compartilhada e a relação pessoa-arte desdobrada durante e depois do encerramento da exposição. “Minha performance está sintonizada com o tema da Bienal, que é ‘Como (ouvir/ver/escrever sobre) coisas que não existem’”, explicou Guaraci, que após circular com seu trabalho nos dois primeiros dias da Bienal (6 e 7 de setembro), no Parque do Ibirapuera, levou sua formiga imaginária ao Memorial da América Latina.

O artista já colhe os frutos de sua ousadia, e revela em primeira mão ao VIVER que, “se tudo correr nos conformes”, no final de outubro voltará ao Memorial da América Latina acompanhado da instalação física da formiga gigante.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

"Cuidado" - Bia Medeiros





Concerto para cigarras no tempo de um cigarro

Performance realizada no PCCP 2012

Diego Azambuja






Diego Azambuja – Conceito de arte da performance como arte em rede

http://vimeo.com/72671556

CorpoPoético: uma cartografia do lugar

CorpoPoético: uma cartografia do lugar 

Texto de Lilian Amaral

CorpoPoético funda-se na concepção ampliada da arte como experiência, tendo os lugares da 
cidade – reais e imaginários – como suporte para criações coletivas envolvendo artistas e não 
artistas. Do espetáculo à experiência da cidade, passa-se às diferenças entre visualidade e 
visibilidade, passa-se da cidade ao lugar. Opera-se uma distinção entre visualidade e 
visibilidade, entre recepção e percepção, entre comunicação e informação. Em todas essas 
diferenças se produzem metamorfoses do olhar. 

CorpoPoético: 
Confluência de espaços

O texto elaborado a seguir define-se mais como um roteiro e idéias e experiências
do que propriamente um ensaio. Entendemos a arte como provocadora de encontros e é
sobre encontros que constituem novas paisagens humanas que vamos iniciar nossa
discussão.
Cabe, antes, abordarmos certas conceituações que têm permeado nossa
investigação. Pode a produção artística contemporânea ser tomada como campo
potencial para um processo transdisciplinar de conscientização de nossa época? Quais
são as perspectivas transdisciplinares de re-significação dos espaços culturais – os locais
tradicionais da arte e a os da não-arte, o cotidiano? Como pensar a relação da arte e o
público no espaço urbano, uma vez que este espaço, na atualidade, alterou a lógica do
monumento, sendo ele próprio o monumento contemporâneo, instaurando cidadesmuseu,
estabelecendo analogias entre cidade e indústria cultural, turismo e
entertainment?
Diante de um panorama caracterizado por tamanha complexidade, apontamos a
experiência CorpoPoético, prática estética coletiva e colaborativa configurada no âmbito
da arte pública contemporânea, ou seja, da arte inspirada, tecida e construída no espaço
urbano e para o habitante urbano, a qual redefiniu decisivamente nossa plataforma de
atuação em inter-ação/intervenção urbana e humana. CorpoPoético desenvolveu em
finais dos anos 90 conceitos e ações que problematizaram e potencializaram, por
intermédio de diversas linguagens artísticas, meios expressivos e comunicacionais,
formas renovadas de apropriação e atribuição de sentido à experiência urbana cotidiana.
Partimos da idéia de que os artistas transfiguram os espaços cotidianos e culturais
entre locais de alienação e rituais de conscientização. Milton Santos comenta que
quando o homem se defronta com um espaço que não ajudou a criar, cuja história
desconhece, cuja memória lhe é estranha, esse lugar é a sede de uma vigorosa alienação.
Mas o homem, um ser dotado de sensibilidade, busca reaprender o que nunca lhe foi
ensinado, e vai pouco a pouco substituindo a sua ignorância do entorno pelo
conhecimento, ainda que fragmentário. Pareceria estranho mencionar um geógrafo para
ancorar um comentário sobre o momento de re-significação dos espaços culturais. O
que está em jogo dentro de uma reflexão sobre papéis e tendências dos locais públicos
de circulação da arte e por conseguinte, cultura e conhecimento, é a preocupação com a
geografia de uma sociedade partida na qual tanto artistas quanto não-artistas se
encontram.
William Mitchell aponta que a mobilização do público em torno de um projeto de
interesse da comunidade é tão importante quanto o resultado por ele desenvolvido, uma
vez que problematiza o cidadão-participante em relação à sua realidade cotidiana. Ao
ver seu ‘produto artístico’ inserido no circuito urbano e fruído por inúmeras pessoas, o
artista/público é levado a refletir sobre as formas de circulação e consumo da arte
contemporânea a partir dos mecanismos utilizados pela publicidade e comunicação de
massa (Mitchell, 1984: 153).
Compartilhando das idéias desses autores, a historiadora e crítica de arte norteamericana
Mary Jane Jacob, refere-se à Arte Pública como um processo de cooperação,
de troca mútua, um diálogo. O plano de obra do artista deveria permitir flexibilidade e
mudança. O artista deveria constantemente ultrapassar as barreiras que separam arte e
vida estabelecendo uma aliança vigorosa entre arte e vida cultural das comunidades,
com a possibilidade de que artistas saiam de museus e galerias e entrem no espaço
público e vivo da cidade, de que eles encontrem sua própria voz artística enquanto
ajudam a expressar a voz dos outros.
A intersecção entre arte e cultura cotidiana – arte e vida – esteve sempre presente
na história das manifestações artísticas, porém positivamente como transcendência e
imanência do poético ao sagrado, do decorativo aos rituais.
Talvez uma nostalgia de comunhão entre arte e vida sejam reflexos de situações
ou estados culturais onde essa categoria como entendemos hoje – arte, não fosse
fragmentada ou mesmo identificada separadamente – tudo era vida/rituais de
vida/casamentos/guerras/morte/vida. Há mais de duzentos anos que essa crise de
fragmentação é articulada pela cultura européia, hegemônica, branca. Mas, de que crise
estamos falando? Quando a arte se distancia do cotidiano, são inaugurados os templos
da arte nos salões e seguidamente, os museus da república, do deslocamento entre
mundo da arte – arte erudita – e vida com arte – as artes populares, dança, música, teatro
de rua, etc. Esses Passaram a ser exatamente mundos paralelos – onde as revoluções
artísticas, ou os artistas revolucionários, como Goya, Courbert, entre outros, marcaram a
história por cruzarem estas fronteiras.
Da virada do século XX até os dias de hoje a história das vanguardas reconta
justamente este espírito de insatisfação com este isolamento e a busca de imersão ou
‘rituais’ de confluência entre a arte e o agora – cotidiano. Inspirados por poetas,
filósofos, (especial referência a Baudelaire, Apollinaire, Bergson, Ponge, Merleau-
Ponty) a produção artística moderna e pós-moderna constrói e desconstrói essa distância
entre arte e vida (moldura, pedestal, cubo branco, anti-museu, anti-arte).
Hoje voltamos a debater o lugar da arte – fora do museu, no cotidiano – e mais
ainda a própria instituição ‘museu’ se vê pressionada a conquistar um lugar no cotidiano
urbano na era do espetáculo, ora confundindo-se ora competindo com shopping centers.
A informação e a comunicação que caracterizam a cidade contemporânea parece
emergir de uma lógica própria, aliada que está à sociedade de consumo.








segunda-feira, 8 de setembro de 2014

Espectador na Performance: tempo presente

Espectador na Performance: Tempo Presente
Rita Gusmão

O espectador como suporte e co-realizador da obra de arte performática, no seu modo ao vivo; a relação entre a fisicalidade das emoções e do tempo-espaço, sua expressão e formalização no corpo do espectador, tornando-o uma das expressões da obra. A fluência, percebida como desenvolvimento no espaço-tempo, interação e composição do fluidor com a obra, caracteriza melhor a relação da figura espectador com a obra na atualidade, pois não ao usufruto que leva esta relação, mas à troca e à reconstrução.


Quero ver aqui o espectador como figura do evento artístico, que se faz necessário nas diversas linguagens sob formatos diferenciados e que complementa a obra quando flui com ela. No caso das Artes Visuais, penso o espectador como o que
contempla o formal, que participa da atmosfera e da significação da obra no espaço, e que imerge em emoções predominantemente individuais.
Nas Artes Cênicas, a fluência da obra é coletiva, isto é, de pelo menos um
atuante e um espectador simultaneamente, e isto acopla à percepção formal a percepção corpórea e emotiva de outro. Na Peformance, no seu modo ao vivo, a fisicalidade das emoções e do tempo-espaço, se expressam e formalizam no corpo do espectador, tornando-o uma das expressões da obra. A fluência, percebida como desenvolvimento no espaço-tempo, interação e composição do fluidor com a obra, caracteriza melhor a relação da figura espectador com a obra na atualidade, pois não ao usufruto que leva esta relação, mas à troca e à reconstrução.
O espectador, receptor público, está na ponta do processo comunicativo em que
se inserem o criador, o espaço e a obra. É, ele quem realiza a obra, pois é ele quem compõe a sua totalidade, num processo ativo de percepção, associação e resposta ao criador. O funcionamento da obra de arte é um complexo que não poderá ser reduzido apenas à decifração de signos, e o espectador é o elo que possibilita que as várias funções da obra se articulem e se realizem.
No espectador acontecem simultaneamente as seis funções de linguagem
(Jakobson In: Ubersfeld, 2005) que podem nos servir para definir esta figura no
processo elaborador da obra. Primeiramente, a função emotiva, ou de motivação para, participar, refletir, negar ou continuar a obra; em segundo lugar a função conativa, que é a articulação interna de resposta do receptor segundo seu repertório de vivências anteriores; em seguida a função referencial, que garante que este receptor se remeta ao real e contextualize o signo escolhido pelo criador. A função fática mantém o espectador ciente de que está em presença de uma obra de arte e que as relações possíveis são de fato possíveis. A função metalingüística reflete a condição de produção, auxiliando o espectador na fluência dos signos e do todo da obra. E a função poética, que é a projeção dos signos e do complexo sígnico que perfaz a obra sobre a totalidade da sua presença no tempo e no espaço reais. O espectador é este complexo que compõe e completa a obra.
A idéia de evento artístico para designar os variados formatos utilizados na
atualidade para a mostra das obras de arte, surge da triangulação de três elementos comuns na obra de arte contemporânea: o tempo como conceito em debate ou conflito nas obras, segundo a rejeição a definições em contraponto à assunção ou provocação de dinâmica de transformação interna às obras, e em terceiro, a ação devoradora da imposição midiática da novidade constante.
A questão do tempo como conceito primordial nas relações do ser humano social
com o espaço e com sua produção simbólica, na atualidade toca à velocidade, como conflito. Para Paul Virílio, o limite do processo de percepção do movimento a que o espectador contemporâneo está submetido pelos motores, entre eles a câmera de filmar, treinou-o a usar o máximo da sua capacidade de identificação visual rápida para averiguar as imagens. A fluência das obras de arte é atingida por este treinamento, e o olhar que contemplava e tinha o tempo de ver, “não escolhe mais onde se deter porque a partir de então ele pode se deter não importa onde, em todos os lugares e em nenhum lugar, o que para constituir suas próprias imagens, volumes, valores, distâncias lhe fazem cruelmente falta” (Virilio, 1996: 67).
A questão da necessidade de dinâmica interna em movimento para a obra, e sua
transformação dentro desta dinâmica parece ter sido estimulada pela rejeição ao passado oriunda da modernidade. Esta modernidade se constituiu como uma figura crítica que suscitou no seu momento de auge o impulso de ruptura e inovação, de autoquestionamento, concordando com Subirats (Subirats: 1991). Penso no ato de assumir a deterioração dos materiais como linguagem das obras, ao invés de imobilizar o movimento do material para torná-lo plástico. E de implicar o espectador nesta deterioração, incitando-o a manipular, penetrar, usar ou destruir a obra. Estimulando a cultura da crise.
Quanto à ação devoradora da imposição midiática pela novidade constante,
parece ser uma influência pós moderna. Um demonstrativo da angústia artística diante da constatação de que nada é original, pois o pensamento é construído pelas vivências coletivas, desde a concepção uterina, e tudo o que colocamos à mostra, muito mais vem à tona do que é criado, sendo esta não-originalidade uma das prerrogativas pós modernistas. Estas características formam um contexto, onde as obras e até as linguagens, se querem eventuais e se desdobram em afirmar isto, se propondo a desconstruir os significados iniciais a cada elemento acrescentado ao contexto criativo.
A posmodernidade parece pensar o artista como um aglutinador de momentos de
passagem, onde as sínteses pairam, e cabe ao espectador realizá-las em si mesmo, no espaço ou na obra. Uma cultura da não-arte.
O espectador, moderno e/ou posmoderno, realiza com seu corpo um sistema
complexo de relações que liga a criação à fluência da arte. Outra prerrogativa do
posmodernismo, a identidade (Stangos, 1994), é a estrutura que lhe proporciona
consentir este sistema, que envolve intelecto, emotivo e corpóreo em igual medida. O corpo sobre si mesmo, e por acepção o espírito sobre si mesmo, envolvido pela fluência da obra de arte, dá vazão ao caráter polifônico da subjetividade (Guattari, 1998), permitindo uma colocação em atividade de vários canais perceptivos simultaneamente e o deslocamento da percepção mecânica do seu ao redor.
Na Performance o deslocamento exige do espectador que a cartografia deste lhe
seja consciente, pois caracteriza este evento artístico a agregação de territórios
existenciais, do criador e do espectador, por meio da experiência sensorial simultânea de ambos. A interação de campos de significado é uma atitude performática, que revela o plural de vozes que interagem na obra desde a sua concepção, implica uma consciência em seus fluidores da sobreposição de significados que lhe é resultante. O lugar do artista passa a ser o uso das interfaces que emergem dos campos de significância como material artístico, e a composição de ações e materiais que sejam capazes de contextualizá-las para o tempo e o espaço da fluência da obra com o espectador.
No processo performático, o artista é catalisador da circunstância efêmera da
obra para o espectador; desenvolve a materialidade da representação, através da
multiplicidade de discursos contrastantes implícitos nas ações-objetos. Esta
materialização se expressa por meio de discursos que entram em diálogo com o
espectador, gerando o vínculo energético indispensável e onde ambos são sujeitos do fazer, assim como suporte do prazer do outro. A noção de suporte se amplia se a pensarmos como vivência do desejo e seus fluxos emotivos. O espectador, esse
vivenciador da invenção sígnica, é solicitado a exercer suas próprias significações para os elementos da obra, e a fluir plenamente com a fusão dos elementos afetivos no prazer pela relação simbólica, pelo desejo representado.
A Performance está para o deslocamento da significação, para uma dispersão do
sujeito socialmente elaborado, em busca da autenticidade do seu desejo. O espaço e o tempo se integram para o cruzamento das referências e das simulações do ser; lugar onde a leitura seja o espaço da ativação da figuração para o espectador, da alteridade, do poder, da memória, do reflexo, da espacialização do pensamento, e mais uma vez, do desejo. Há uma ocupação com a corporalidade do espectador, que aponta para uma renovada relação social, cultural e política para o evento artístico. Uma área de discurso aberta na direção de uma figuração do reprimido, e até do impossível ou intolerável, sedutora para uma civilização imersa na tecnologização do cotidiano e na materialização mecanizada das ações. Esse corpo-espectador, multiculturalizado pelas mídias, convive com a velocidade, e esta se lhe afigura como espontânea e natural.
A velocidade, como manifestação do tempo, gera modos de conhecimento e de
representação. Na corporalidade, a velocidade marca a ausência do objeto e uma relação absolutamente efêmera com ele. Por outro lado, a velocidade gera uma substituição óptica da ausência, quero dizer que a velocidade gera um contexto de proximidade com o que já não está presente, tornando desnecessária a presença. Esta percepção vem sendo desenvolvida no espectador pelas mídias da imagem em movimento e pela cultura da não-arte. Ela apaga os indícios materiais da realidade, imprimindo uma espécie de apreciação seqüencial do mundo, que é todo ele fragmentação e necessidade de vivência do presente, pois a velocidade deixa atrás de si o vazio.
Um olhar treinado para captar, sem perceber, a seqüência de imagens que
desfilam ininterruptamente no mundo, levará a percepção a transformar o tempo
presente ao espectador em tempo real. O tempo da percepção será fragmentado pela diferença entre a ação de olhar e a necessidade de ver/captar imagens em seqüência contínua de movimento.
A velocidade reestrutura a noção de tempo presente para o espectador, e este na
posmodernidade contém a marca da percepção pessoal. A velocidade consegue garantir a condição de verdadeirização do evento, mas deixa livre o espectador para vivenciar sua condição de efemeridade. Na fluência da Performance o tempo presente é o canal de abdicação da racionalidade pura, que possibilita a abertura para percepções simbolizadoras do evento. A aceitação do processo de verdadeirização individual é parte do contexto de captação do complexo sígnico da Performance. O tempo presente é um contexto narrativo que absorve as percepções negativas e positivas, e que vai se adaptando aos imprevistos e às surpresas, gerando um momento simbólico único, e que se fortalece por ser dependente do estado do espectador em relação ao espaço e às ações da Performance.
A Performance é pensada aqui como a arte do instante presente, o tempo real
substanciado e se tornando presente para a percepção, no sentido de que todo o contexto continua sendo criado na presença e no diálogo de presenças entre criador e espectadorcriador. Ambos estarão presentes nas suas pessoas, as ações serão ampliadas para continuarem mais e mais presentes e a efemeridade comporá a ritualização do instante. O tempo presente como ação de leitura que emerge do contato e do diálogo com os corpos atuantes. A presença como única mediação da fluência da obra. Ao encarar o tempo presente como categoria definidora de ação performática, a atitude reconstrutiva e aberta em relação à realização da obra é seu complemento. A produção de relações só se pode realizar de fato numa atitude de presentificar o tempo e a presença do outro. Estar com e promover a relação constante, assumir a presença e o tempo presente de cada espaço e da maioria possível de espectadores como o roteiro da ação performática.

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Referências Bibliográficas
COHEN, Renato. Performance Como Linguagem. São Paulo: Perspectiva. 2002.
STANGOS, Nikko. Concepts of Modern Art. From Fauvism to Postmodernism. Third Edition,
London: Thames and Hudson. 1994.
SUBIRATS, Eduardo. Da vanguarda ao Pós-moderno. 4ª. Edição. São Paulo: Nobel. 1991.
UBERSFELD, Anne. Para ler o Teatro. São Paulo: Perspectiva. 2005.
VIRILIO, Paul. A Arte do Motor. Tradução Paulo Roberto Pires. São Paulo: Estação Liberdade,
1996.