segunda-feira, 8 de setembro de 2014

PerformanceCorpoPolítica

"O site PerformanceCorpoPolítica visa discutir a linguagem artística performance enquanto campo híbrido da arte contemporânea: corpo, coletivo, cidade e política, com o objetivo de gerar reflexão a partir de material fotográfico, videográfico e bibliográfico.
Os debatedores e artistas selecionados pela curadoria dos eventos: Performance, Corpo, Política e Tecnologia (2010. MINC/Petrobrás), Performance, Corpo, Política e Tecnologia do Cerrado (2012. Corpos Informáticos), Performance, Corpo, cidade (2012. FLAAC, UnB) e Performance, Corpo Política (2013. FUNARTE) visam atender a diversidade teórica e prática no campo da arte contemporânea em geral e da performance em particular (arte da performance e performance como campo híbrido e como campo antropológico e etnográfico). As questões giram em torno de:
1- a performance como linguagem artística híbrida.
2- a performance como atitude política, isto é como micropolítica (Foucault), como macropolítica (no campo das artes) e como terceiro expansão.
3- as micropolíticas do corpo.
4- o trabalho artístico realizado em grupos ou coletivos. As mesas-redondas/debates estão assim nomeadas e tratarão os seguintes temas:
Conceito de arte da performance, redes, outras políticas, espaço urbano, relações de poder, arte contemporânea, política, corpo coletivo, dança, novas tecnologias.
Outro objetivo da proposta é o fortalecimento das discussões, das políticas e do acesso a materiaissobre a performance, uma vez que são escassas fontes de pesquisas são lidas sobre esta linguagem no Brasil, fato que já apagou de nossa história recente diversos artistas e manifestações que utilizaram esta linguagem que é por essência efêmera. A performance se caracteriza como arte efêmera, então sua necessidade de memória é estrutural para o pensamento atual mas sobretudo para gerações vindouras (meméria e pesquisa). Este paradigma é sua própria essência.
Diferentes correntes de pensamento estão representadas para debater performance e corpo, arte e tecnologia; performance e trabalho em grupo; tecnologia como possibilidade de criação de memória; performance em telepresença; dança; vídeo-dança; máquina de dança; cinema e performance; grupos e coletivos; ciberfeminismo; performance e composição urbana; artivismo.
O proponente, o Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos – GPCI (www.corpos.org), reconhecido CNPq desde 1994, efetua reflexões e práticas relacionadas à performance e pensa a presença dastecnologias digitais frente a um corpo que, jogado na cidade, se re-dimensiona.
A arte contemporânea, em geral, a performance e a dança contemporânea são por essência linguagens artísticas experimentais e efêmeras no campo dos comportamentos pós-modernistas. Necessita, porém, de maior potencia de afeto e entendimento, sobretudo no que diz respeito ao seu confronto com o grande público e com as novas tecnologias digitais de criação e transmissão de som, imagem e movimento.
Com a massificação da internet, outras perspectivas apareceram e atitudes ressurgem. Terreno de combate privilegiado, campo de invenção político-social extremamente fecundo e possibilidades de desmassificação crescente. Mas este novo suporte para as comunicações sociais é constantemente assediado com modelos e parâmetros colocados pela indústria cultural, o que nos leva a perguntar: até que ponto esse espaço virtual contempla somente as demandas impostas pela sociedade do consumo? E a finalidade deste espaço seria única e exclusivamente a de atender ao conceito maior e imutável do capitalismo, ou seja, o lucro?
A performance necessita de maior potência de afecto e entendimento, sobretudo no que diz respeito ao seu confronto com o grande público e com as novas tecnologias digitais de criação e transmissão de som, imagem e movimento. A performance não se limita a universos particulares, ao contrário, ela precisa do outro para acontecer, para confrontar universos e criar possibilidades políticas e inusitadas. São poucos os eventos, são limitadas as publicações e são raros os arquivos áudios-visuais sobre performance e tecnologia no Brasil, sobretudo num viés político.
Esta escassez de materiais e de manifestações espontâneas no contexto das cidades contribui para uma crescente especialização do circuito artístico. Por um lado, o desejo maior é o que nos querem vender: desejamos uma produção ininterrupta e insensata ou ainda, uma velocidade e exuberância em cada produção artística. Essa atitude megalomaníaca vem no percalço das superproduções estrangeiras do cinema, da televisão, da internet e da publicidade. Nestes espaços rígidos e conservadores o corpo é apresentado sempre carregado de conotações e nunca é o corpo vivo contraditório presente em nosso cotidiano. Ele, aí, não é mais o lugar da verdade subversiva do desejo. O corpo na publicidade não é nem carne nem sexo, mas objeto transformado em signo, com uma função de troca.
Acreditamos ser esse um desejo demente e gerador de problemas, isso porque retira do sujeito singular a possibilidade de se estruturar como eu, por retirar do sujeito sua singularidade. Ele deseja pouco porque assim quer a publicidade. Um desejo descartável e superficial que logo se torna obsoleto. Na instância micro-político essa exploração industrial gera a homogeneização dos desejos e dos hábitos e conseqüente homogeneização da cultura e do pensamento na instância macro-político.
Com a massificação da internet, outras perspectivas apareceram e atitudes ressurgem. Terreno de combate privilegiado, campo de invenção político-social extremamente fecundo e possibilidades de desmassificação crescente (youtube, vimeo, entre outros invadem os campos que antes pertenciam à televisão). Mas este novo suporte para as comunicações sociais é constantemente assediado com modelos e parâmetros colocados pela indústria cultural, o que nos leva a perguntar: até que ponto esse espaço virtual contempla somente as demandas impostas pela sociedade do consumo? E a finalidade deste espaço será única e exclusivamente a de atender ao conceito maior e imutável do capitalismo, ou seja, o lucro?
Hoje, é como se o consumo, sincronizando o eu, tornando cada eu similar, o adotasse, anulando, conseqüentemente, o nós, e “criando um agente” (STIEGLER, Bernard. Amar, nos amar, se amar, Paris: Galilée, 2003. Tradução e organização: Maria Beatriz de Medeiros). A evolução técnica gera desequilíbrio, mas quando esse desequilíbrio está associado à perda da individuação, o desajuste pode atingir um limite, e esse limite pode impossibilitar o futuro (avenir). Stiegler chega mesmo a dizer que, se o futuro (avenir) se confundir com o devir (devenir), o “fim dos tempos” pode ser uma possibilidade.
Ilya Prigogine (Temps à devenir. A propôs de l’histoire Du temps. Paris: Les Grandes conférences, 1994, p. 29), de outra forma, também fala dessa compreensão do tempo e do mundo e dos seres vivos: “[...] O não-equilíbrio é a via mais extraordinária que a natureza inventou para coordenar fenômenos, para tornar fenômenos complexos possíveis”.
Entre esses fenômenos complexos, Prigogine cita o ser vivo, cuja vida só é possível devido a ritmos, todos eles “longe do equilíbrio”. Complexidade, não-unicidade, múltiplas forças, muitos aspectos (Wittgenstein), tudo em inter-relação e em movimento. Isso se faz necessário para que haja vida. A sincronia, a homogeneização é perigosa. Aí não há movimento, agenciamentos, como fizeram ver Gilles Deleuze e Félix Guattari. O que há é um nós-rebanho, como nos advertiu Nietzsche.
Neste momento em que o Museum of Modern Art de New York realiza uma imensa exposição sobre o trabalho de performance de Marina Abramovich, com sua presença diária em performance, todo o mundo da arte está pensando qual o lugar da performance na arte, na política, no mercado de arte, qual o papel do corpo vivo e ao vivo na arte contemporânea. Assim, vale ressaltar que esta proposta está alinhada com este momento e se faz importante deixando o Brasil na vanguarda do pensar esta linguagem artística híbrida que redimensiona diversas áreas de conhecimento.
Na forma como o Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos (GPCI) utiliza a internet para a arte, com a performance em telepresença e a com a composição urbana, propomos um outro corpo, um corpo coletivo que gera sincronia e diacronia, um corpo social que atende às demandas políticas de nossa sociedade e confronta este espaço virtual da mesma maneira que confronta o espaço real. A conseqüência dessa atitude é a de garantir a liberdade imanente que este espaço oferece. Destas performances em telepresença foram gerados os vídeo-documentários: Estar (Bienal do Mercosul, 2006), Replexo e Plexo-re (a partir das performances de mesmo nome no SESC -Pinheiros, SP e FUNARTE), Ponto cílios (a partir das performances de mesmo nome realizadas nas exposições Cinético Digital no CCBB, Brasília e O corpo na arte contemporânea no Itaú Cultural, 2005), Hungry@corpos (2001), etc.
A internet, embora possa gerar solidão, quando utilizada apenas como meio de comunicação, isto é, como meio de in-formação, pode gerar, se utilizada como instrumento de pesquisa, busca o encontro do outro singular, espaço para a germinação de singularidades onde o eu se individua em um processo de individuação do nós, possibilidade da criação da diacronia.
Os corpos-desejo-de-fato desejam outros vivos, no vivo e/ou ao vivo, de algum ponto qualquer da rede, eles nos desejam. Nesta, eles são inorgânicos e não mercadoria. Eles são luz emitida e corpos contraditórios. Podemos identificar processos de adoção que nos inserem no seio de um nós tal como um grupo de amigos que compartilham trabalho ou lazer, trabalhos colaborativos [1] ou grupos de profissionais (artistas, filósofos, pesquisadores em áreas específicas) [2] e grupos virtuais [3].
A linguagem artística performance, com seus “homens-ação” (Tristan Tzara) é “máquina de guerra” (Deleuze e Guattari) ou carícia, como se exprime o GPCI, neste contexto: ela questiona, critica e propõe. Seu aspecto híbrido redefine a positividade técnica da tecnologia. O corpo aqui (a)presentado (sic) é potência política no momento atual de tanto desinteresse por mudanças. Trata-se, ainda, de redimensionar e politizar o corpo no espaço urbano e a internet, que é entendida como espaço público por excelência (rua), através destas ações artísticas.
Organizar este site sobre Performance: corpo, política e tecnologia permite reunir pensadores e artistas de grande parte do Brasil e do exterior, pensadores e artistas esparsos, ainda que por vezes em grupos ou coletivos. Desta reunião resulta debate, divulgação, maior entendimento desta linguagem artística e sua função política."

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

Projeto Cultural Arte em Foco


  • O projeto - 2014
Arte em Foco – ciclo de reflexões sobre as artes, realizado pela representação da Funarte em MG -, chega à sua sexta edição e, neste ano, foca sobre importantes temas da atualidade – deficiência, periferia, afrodescendência e psicanálise – relacionando-os à arte e a educação. A edição 2014 vai contar com representativos pesquisadores para conduzirem os cursos, e também com a participação de jovens e reconhecidos artistas, que irão realizar intervenções artísticas relacionadas ao tema de cada mês.Aberto a todos interessados, o projeto Arte em Foco continua tendo como objetivo: a formação continuada do público em geral, estudantes e professores; a promoção do encontro entre as instâncias de Arte e Educação; e a contribuição para a diversificação da programação da Funarte MG, que se consolida como relevante espaço das artes na cidade de Belo Horizonte.As inscrições, gratuitas, podem ser feitas a cada mês, pelo email arteemfoco.funarte@gmail.com. As vagas são limitadas e os participantes que obtiverem frequência mínima de 75% serão certificados.O projetoArte em Foco é um ciclo de reflexões sobre as artes, realizado pela representação da Funarte em Minas Gerais desde 2009. Contando sempre com intervenções artísticas, o projeto abre espaço para o artista convidado, que, além de ilustrar a palestra do professor, fala com o público sobre o seu trabalho, sua trajetória e sua poética.Atendendo às sugestões de temas feitas pelos participantes do Arte em Foco em edições anteriores, as reflexões dessa 6ª edição serão sobre Arte, Deficiência e Educação; Arte e Periferia; Dança e Afrodescendência; e Arte e Psicanálise.
  • Edição de 2011 - performance e política
De 24 a 26 de outubro, a Funarte MG abriga o quinto ciclo de palestras da III Edição do Projeto Cultural Arte em Foco. O evento, criado pela representação mineira da Fundação Nacional de Artes, já é um encontro marcado no calendário de pesquisadores, artistas e público.Dessa vez, Maria Beatriz de Medeiros, fala sobre o evento performance como política – política do corpo, política do corpo na cidade, política no meio artístico, política na rede mundial de computadores – e faz um recorte da produção atual de performance no Brasil.Maria Beatriz Medeiros é professora do Departamento de Artes Visuais da UnB (graduação e pós-graduação), coordenadora do Grupo de Pesquisa Corpos Informáticos, desde 1992; possui graduação em Educação Artística pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (1979); mestrado em Estética – Universite de Paris I (Pantheon-Sorbonne) (1983); doutorado em Arte e Ciências da Arte- Universite de Paris I (Pantheon-Sorbonne) (1989); pós-doutorado em Filosofia no Collège International de Philosophie, Paris (2000). Tem experiência na área de Artes, com ênfase em Artes Visuais, atuando principalmente nos seguintes temas: arte contemporânea, arte e tecnologia, arte contemporânea, arte eperformance, intervenção urbana. Foi coordenadora adjunta para a área de Artes na CAPES (2005-2010); suplente na cadeira de Artes Digitais no Conselho Nacional de Cultura (2007-2009); presidente da ANPAP (2003-2005); coordenadora do Programa de pós-graduação em Arte-UnB (2003-2004).


Referência:
- http://www.funarte.gov.br/artes-integradas/abertas-inscricoes-para-mais-uma-edicao-do-arte-em-foco-na-funarte-mg/
- http://www.funarte.gov.br/artes-integradas/performance-e-politica-em-foco/



quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Performance artística no vivo e ao vivo

Texto Performance artística  no vivo e ao vivo de Maria Beatriz de Medeiros


A performance é arte tornada ação corporal efêmera, realizada no vivo ou ao vivo, isto é, realizada com a presença de performers, artistas e interatores (espectadores convidados à participação) ou realizada por meio de novas tecnologias de comunicação, como a internet. Aqui, não consideramos toda ação (to act) performance (to perform). O que denominamos performance é arte, isto é, voluntariamente ato que visa revelar o outro do mundo sensível e, assim fazendo, criar faíscas de sensível inteligibilidade, entre seres humanos. Inteligibilidade sensível entendida sempre como faísca: pedaços desgarrados de compreensão
redimensionável. E o sensível inteligente como aquilo que perdura. A sensação é
aquilo que dura (DELEUZE; GUATTARI, 1991). A percepção é aquilo que nos deixa abertos ao mundo. A performance quer tocar a percepção e ser guardada como sensação acariciada por alguma busca de compreensão.
A performance art nasceu como happening (evento); alguns a chamaram body-art, outros, art corporel, todos reivindicando para si o lusco-fusco inicial de um novo movimento artístico. Allan Kaprow, em 1984, em Salzburg, confidenciou-nos que apenas Wolf Vostell e ele faziam happenings, segundo a sua concepção de happening, qual seja, ação artística envolvendo a participação ativa do público. Como Kaprow, entendemos performance como ação aberta à participação do público, que assim não mais se chama “público”, mas “interator”. Aberta à participação do interator, toda performance teria um viés de improviso. François Pluchart (1983, p. 123) preferiu intitular seu livro L’art corporel (arte corporal) e assim se colocou: “Se a expressão ‘arte corporal’ tem o mérito de manter a questão do corpo no interior do domínio da arte, a palavra ‘performance’ gerou os piores mal-entendidos”.1 Concordamos com Pluchart: o corpo é o sujeito e o
objeto da arte da performance.

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terça-feira, 2 de setembro de 2014

Arte, performance e rua

Arte, performance e rua - Maria Beatriz de Medeiros

Resumo: O presente texto trata de arte nas ruas, performance nas ruas. Ambos entendidos como fuleragem (sic), como o duro, ou ex situ, por oposição ao doce, ou in situ. O espetáculo Mar(-ia-sem-ver)gonha do grupo Corpos Informáticos norteia a reflexão.


Arte não cabe em caixinhas, não cabe em galerias, não cabe em prêmios nem em editais (in situ). Arte é reflexão, inflexão, proposição e até despacho. Ela escoa, não se fixa nas paredes. Não tem moldura nem prego que a segure. A moldura é dura, mas também é doce e obedece, chiclete. O  prego fere e deixa marcas na parede, mas não nos corpos. Nestes deixa afetações.
Os espaços institucionalizados de e para a arte são como molduras, prendem e a separam dos ventos que rondam. O que está separado fica parado no prato servido. Os olhos comem, mas não ousam cheirar ou se debruçar. Os olhos só veem. E como ver se tornou tudo em nossa sociedade, inclusive bastando a si mesmo, muitos crêem que ver, basta. Muitos compram revistas de mulheres nuas e se satisfazem crendo possuí-las. Compram carros só por que vêm com músicas e mulheres invisíveis. Passam batom usando o celular como espelho; se penteiam nos elevadores acreditando fazer diferença esse ou aquele fio de cabelo para o lado de lá.

Arte que compõe com espaços institucionalizados é boazinha, comportada e obediente. Os pais gostam e até mimam. Levam suas crias para passear em bienais internacionais e os deixam dormir mais tarde, pois já terminaram suas tarefas da escola. Aprenderam que um mais um são dois e que exceção se escreve com “xc” e “ç”, e deve ser evitada. A exceção pode incomodar exatamente por essa esdrúxula ortografia.
E arte que saiu da galeria (ex situ)? Fugiu de casa, deixou a escola, foi aprender na rua que um mais um pode ser Chernobyl ou Fukushima. Pode ficar vazando por anos sem que ninguém comente, as autoridades se pronunciem e a população morra vítima de radiação surda e truculenta. Descobriu que exceção, exatamente por ser exceção pode ser excessão, exceção, e-sessão, ex-cessão, esse são, aquele doente, dente sem canal, canal sem água, água reconstituída e memória de poluição. Você acredita em homeopatia?

Performance artística e a questão da censura

Performance artística e a questão da censura
Maria Beatriz de Medeiros
Universidade de Brasília


A performance é arte tornada ação corporal efêmera, realizada no vivo ou ao vivo, isto é realizada com a presença de perfomers, artistas e interatores (espectadores convidados à participação) ou realizada através de novas tecnologias de comunicação, a internet. Aqui, não consideramos toda
ação (to act) performance (to perform). O que denominamos performance é arte, isto é, voluntariamente ato que visa revelar o outro do mundo sensível e, assim fazendo, criar faíscas de sensível inteligibilidade, entre seres humanos. Inteligibilidade sensível entendida sempre como faísca: pedaços desgarrados de compreensão redimensionável. E o sensível inteligente como aquilo que perdura. A sensação é aquilo que dura (DELEUZE & GUATTARI, 1991). A percepção é
aquilo que nos deixa abertos ao mundo. A performance quer tocar a percepção e ser guardada como sensação acariciada por alguma busca de compreensão.
Não se trata de dança ou de teatro. A carga de improviso eleva a tensão. O texto pode existir, mas não rege a ação. O corpo se coloca com tal. O outro é parte do projeto.
Assim, era uma vez uma mulher que adorava correr perigos mortais. Por isto resolveu realizar performances artísticas, primeiramente, confrontando seu parco corpo aos imensos cartazes publicitários de Paris. Nua, louca. Não satisfeita resolveu fazer um Doutorado sobre performance art. Isto é, resolveu, e temeu, tornar suas ações figuras de retórica: ações, para sempre mortas como
fotografias e vídeos sem sangue, tornadas palavras alinhadas, letras desesperadamente frias arrumadinhas como convém à academia.
Estávamos nos anos 80 e recebi uma bolsa de Mestrado do governo francês para realizar dois anos de estudos na França, mais precisamente em Paris. No Brasil fazia gravuras, litografias, sobre papel nobre e sobre papel ordinário. Estes eram colados nas ruas, nas paradas de ônibus, sobre cartazes publicitários no Rio de Janeiro. E também utilizava carimbos: “Atenção, para sua segurança, este
trem somente circula com as portas fechadas”, foi o carimbo mais utilizado. Estávamos no fim da ditadura e este texto, retirado do trem da Central do Brasil, fazia pensar. A estas ações chamava interferências urbanas com o intuito claro de ‘ferir’.

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Performance artística e tempo

Fragmentos do texto Performance artística e tempo de Maria Beatriz de Medeiros




  • "Era uma vez uma mulher que se divertia em correr perigos mortais. Essa mulher era artista e praticava, sobretudo, a linguagem artística performance."



  • "Aquele que constrói um discurso sobre uma ação a aniquila. No texto, a performance é esfolada. Fora de seu tempo, ela é esvaziada e enclausurada em reproduções fotográficas ou vídeos."



  • "Em geral, a performance secreta (purga, expele) um desejo de perturbar a ordem de quotidianos enfeitiçados pela regularidade."



  • "A performance é processo puro. E se dela falarmos, estaremos sendo sempre parciais: cada um de sua perspectiva pouca. Essa arte é um reflexo de percepções de um imaginário particular, tudo isso em um momento único e preciso. A palavra, que pretende a compreensão universal de uma ação artística efêmera, ou não, será sempre geradora de direito de exclusão."



  • "Uma performance finalizada carrega consigo um eco ensurdecedor de um gozo nunca mais retomável. Frustrar o gozo, permanecer no desejo, incita."



  • "A linguagem corporal dificilmente se tornará linguagem arcaica e comprometida."



  • "Para falar de performance, precisamos encontrar estratégias de escrita como encontramos, na prática, estratégias de ação: espontaneidade e improviso."



  • "Escrever um texto sobre performance é uma contradição. Um sistema fechado e reconhecível é incompatível com a performance. As ações são irredutíveis a palavras. Essa arte não quer erigir um sistema, não quer se tornar um método, não funda escola."

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

Performance art e filosofia

* Texto escrito para a primeira edição da Revista Eletrônica do CEIA, 2009. Endereço eletrônico: http://www.ceia.art.br/revista/.
Autor: Fernando Cesar Ribeiro
A performance art surge como meio de exploração artística entre as décadas de 1960 e 70. Tendo como fio condutor a ação do artista num tempo presente e diante de um público que completa a sua “obra de arte”, atravessou as décadas e hoje torna-se um dos meios artísticos de maior ascensão, no mundo e também no Brasil.
Em praticamente quatro décadas, a performance mostrou-se um meio de extrema abertura à experimentação, podendo-se considerar que cada trabalho , e cada artista a desenvolvê-lo, propõe sua própria estrutura, dita seus próprios limites, torna-o único dentro do seu sentido próprio.
Apesar da individualização e da diferença dos mais diversos trabalhos, todos são reconhecidos pela da terminologia performance art, tidos como comuns entre si. Esse aspecto, provavelmente herdado do ser humano, permite que as mais diversas áreas do conhecimento possam se debruçar a estudar tal prática. Assim, a produção teórica da Sociologia, da História, da Semiótica, da Psicologia encontram um vasto campo de reflexão na performance art. E, nesse ponto, pergunto-me: sobre quais aspectos a filosofia poderá refletir sobre tal prática?
Gostaria aqui de fazer uma analogia ao questionamento do filósofo francês Paul Ricoeur sobre a possibilidade de uma filosofia da ação, diferentemente de uma ciência da ação e da ética e política. Em “O discurso da acção”, ele discorre sobre áreas das ciências humanas, como a Sociologia, que se propõem ao estudo da ação. A primeira analogia que faço é ao seu primeiro questionamento: Se as ciências humanas já se ocupam do estudo da ação, o que estaria relacionado ao estudo de uma filosofia da ação?
Outro questionamento seu refere-se ao campo de atuação da filosofia em si. Como diz, para Aristóteles, a ética era o campo de estudo da ação humana; entretanto, mirando a política como atuação na cidade. Levanta também a questão sobre a moral em Kant, que seria o domínio de estudo do campo prático. Assim, Paul Ricoeur se questiona: o estudo da ação deverá se resumir ao estudo da ética ou da moral? E é fazendo uma analogia a essa primeira que coloco a minha questão: um estudo filosófico da performance art deverá se resumir somente à estética?
A resposta de tal questão, seja positiva ou negativa, abre as mais diversas dificuldades. Ao se confirmar a estética como campo filosófico de estudo exclusivo para performance art, não estaríamos a delimitando somente ao campo da sensibilidade? E, no caso contrário, quais serão as outras áreas da filosofia que podem se debruçar sobre a performance art? E como?
Como vemos, o empreendimento para refletir sobre tais questionamentos, e quem sabe respondê-los, não é um dos mais simples. Talvez seja um empreendimento de longo caminho e que, no fim, nada se encontre, não se vá a lugar algum. No entanto, mesmo dentro dessas possibilidades, não deixa de ser um projeto instigante.
Assim, para traçar tal empreendimento, um primeiro momento seja tentar definir qual pode ser o campo de exploração da filosofia na performance. Mas em vez de partir dela mesma, talvez seja o momento de identificar o que outras áreas do saber humano já desenvolvem sobre o tema. Desse modo, acredito que a História e a Sociologia possuem grande peso sobre a produção teórica dessa prática artística. A História como marca primeira do registro desse meio no desenvolvimento da arte contemporânea. O que, na realidade, não quer dizer que há uma História da performance art, no sentido grande de História. Mas, como Paul Veyne afirma, há uma história comparada, ou seja, uma história da performance dentro de uma história da arte, que se inscreve no que pode ser chamado de a História.
Desse mesmo modo, encontramos o cruzamento direto com a sociologia, que, grosso modo, estuda a relação de tal prática com os corpos sociais. Ou seja: é certo que o feminismo e o multiculturalismo, por exemplo, encontraram na arte (e mais precisamente na performance) um meio de expressão/comunicação sem igual. A força de trazer questões de  certo contexto, que ora era expressado ou representado e que agora pode tomar corpo em um momento real, presente, vivido e ainda artístico é de uma necessidade de estudo sem igual.
Quanto à performance art: História e Sociologia parecem se relacionar como o tempo e o espaço. E a filosofia? Pois bem, com certeza não se ocupará dos projetos artísticos individuais, com  suas interferências específicas no espaço e no tempo, mas poderá muito bem se questionar sobre que espécie de espaço e tempo são esses. Talvez seu primeiro questionamento seja sobre como uma prática artística de expressões tão diversas pode ser reconhecida como a mesma. Ou a pergunta clássica: “O que é performance art?”.
O empreendimento para se fazer reflexões sobre tal pergunta talvez não tenha espaço aqui, mas isso não é impedimento para se traçar um esboço de uma possível investigação.
Comecemos: "O que é performance art?”  é da mesma natureza que “o que é pintura?”, “o que é literatura?”, ou mesmo “o que é arte?”. Entretanto, no caso específico da performance art, essa pergunta é totalmente enganada, porque simplesmente o objeto da pergunta “O quê?”, na realidade, não existe. Ou seja: esperar uma resposta de “O que é performance art?” é esperar no vazio. Não há resposta satisfatória a essa questão, e não por conta da natureza experimental da performance art, mas por a pergunta ser errada. Não dá para se dizer o que é performance art, mas pode-se dizer como é. Seu “objeto” é o processo, é a ação.
Desta maneira, questionamo-nos novamente: Como é a performance art, se cada trabalho, cada artista, propõe e desenha sua estrutura? Não será a pergunta individual “Como é esta performance específica? Ou a outra performance?”
Uma performance é diferente da outra, é certo, mas isso não quer dizer que não possuam similaridades que as permitam ser reconhecidas como tal. Regina Melin, em seu livro A performance nas Artes Visuais, com a intenção de ampliar a definição de performance, já nos proporciona uma descrição do “como?” da performance, sem se reter a casos particulares:
Nas artes visuais, sempre que ouvimos a palavra ’performance’ é comum nos remetermos de imediato à utilização do corpo como parte constitutiva da obra, e nossas principais referências têm sido freqüentemente os anos 1960 e 1970. Muitas vezes, também, somos levados a pensar em um único formato, baseado no artista em uma ação ao vivo, visto por um público, num tempo e espaço específicos. (Melin, 2008, p. 7)
O que a autora se refere como “um único formato” é exatamente o “como?” da performance ao qual me referi. Mais do que formatar, corpo, ação, público, tempo e espaço são primitivos e essenciais para a performance art, para qualquer trabalho, por mais diversos os exemplares que existam. Esses elementos não a formatam, mas são necessários a ela. E, talvez, sejam eles que permitam se pensar numa linguagem da performance art. Esse também é um pensamento que abre um novo campo para investigação filosófica.
Mas gostaria de voltar ao “Como é a performance art?”, agora pensando no seu potencial de definição da prática. A pergunta em si exige, necessariamente, que a resposta seja, no mínimo, uma descrição. Entretanto, não será a descrição em si o fator de definição, mas, sim, o seu campo aberto para a investigação. Ou seja, a descrição “o artista em uma ação ao vivo, visto por um público, num tempo e espaço específicos” está longe de dar uma definição exata do que é performance art, mas traça o caminho para se pensar o “como?” em um nível mais profundo.
Desse modo, não é somente o “como?” da descrição que está a operar, mas o “como?” de cada elemento da performance, de “como” o são, “como” se relacionam, “como” se inter-significam, “como” se entrelaçam, fazendo com que a performance diferencie-se de outros meios que também apresentam os mesmos elementos-base e que, ainda, temos certeza de que não são performance art. Seja essas artes dança, teatro, orquestra ou banda de rock, um político num palanque ou num debate. Talvez seja a busca de respostas à pergunta “Como?”, nos níveis mais profundos em que se possa ir, tendo em vista o que há de essencial operando nos exemplares singulares, que nos permita dizer e pensar, conceitualmente, a performance art.
Portanto, mais do que respostas, aqui lanço dúvidas — que migram entre a teoria e a prática incensantemente. Dúvidas que fazem pensar constantemente, a cada momento em que o termo performance art é dito, escrito, pensado. Mas, com certeza, mais do que dúvidas, é um convite: à filosofia e à performance art.

Referências

MELIN, Regina. Performance nas artes visuais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
RICOEUR, Paul. O discurso da acção. Edições 70: Lisboa, 1988.
Texto retirado do site: http://www.fernandoribeiro.art.br/index.php/br/outros/artigos