sexta-feira, 22 de agosto de 2014

Alexandre da Cunha


Manuais de primeiros-socorros inspiram o trabalho do artista carioca Alexandre da Cunha. A performance trata da fragilidade do corpo. Um colaborador é convidado a repetir uma seqüência de movimentos que remetem a procedimentos de tratamento e intervenção, como massagens, enfaixamento e autópsia. O artista é considerado um seguidor da arte relacional proposta por Lygia Clark. A obra foi comissionada pela Associação Cultural Videobrasil.
A performance foi reeditada pelo artista em 2013, durante o 18º Festival. Assista ao registro dessa apresentação no Canal VB

O corpo na poética de Lygia Clarck e a participação do espectador

Texto de Dirce Helena Benevides de Carvalho

"No Brasil, o trabalho de Lygia Clark é de extrema relevância em decorrência das transformações que opera nos três elementos da comunicação artística: o artista, a obra e o espectador. A trajetória de Lygia Clark é a própria trajetória de vida e arte que se mesclam, se misturam, se desdobram, se tocam, se confundem para resgatar o significado primeiro de “ser e estar” no mundo. Esse terreno fronteiriço onde se instaura a artista a partir da criação dos Bichos, 1959, dificulta a tratativa de sua produção, pois ao abandonar o objeto de arte faz uma expansão em sua obra contaminando outras áreas do conhecimento , trabalhando em um terreno movediço, onde qualquer tentativa em categorizá-la será sempre um risco. Ressalta-se, portanto, que o exercício reflexivo do presente artigo propõe-se a levantar alguns deslocamentos realizados pela artista na passagem do objeto permanente para o corpo sem a pretensão de subscrever suas manifestações em algum campo específico, seja no âmbito das artes visuais, da performance, das artes cênicas, da arte terapia, ou mesmo da antiarte.O que se pretende é sinalizar deslocamentos advindos da passagem do objeto para a arte efêmera onde a artista elege o corpo como o topos de sua obra. Para explicitar tal passagem , faz-se necessário discorrer sobre as transformações que ocorrem na trajetória de Lygia Clark. Para tanto, foram escolhidos os Bichos, obra criada pela artista no momento em que integra o Grupo Neoconcreto, 1959-1961, e Caminhando, 1964. A própria artista não permite que sua obra seja categorizada. Extremamente lúcida, passa por transformações onde todas as fases se entrelaçam, advindas de múltiplos processos de transformação, de germinação de idéias, de buscar no mundo e em si mesma, no aqui e no agora as sensações esquecidas. A lucidez é experimentada em cada uma delas e sempre acompanhada de dolorosas crises, quando experimenta os seus limites, para no momento seguinte emergir em novas percepções. São vivências profundas que a artista não deixa escapar trazendo-as para a sua arte. Todas as fases de seu trabalho resultam de longo processo de maturação, muitas vezes inconsciente, vindas quase sempre em imagens oníricas “no interior que é exterior, uma janela e eu. Através desta janela eu vejo passar lá fora o que é para mim, o que está dentro. Deste sonho nasceu o Bicho que denominei ‘dentro-fora’” (CLARK, 1980, p. 23). Lygia Clark durante toda a sua trajetória tem consciência das inquietações e perturbações causadas pelos avanços tecnológicos e, na sua ousadia luta para recuperar esse homem fragmentado na tentativa de devolver-lhe o equilíbrio necessário para a sua sobrevivência.Ao abandonar o objeto de arte, coisa do passado dada ao espectador para decifrá-lo, a artista elege o corpo como o lugar privilegiado para suas proposições. Sobre a necessidade o corpo, Lygia em correspondência enviada a Hélio Oiticia, declara “Em tudo que faço há realmente necessidade do corpo humano que se expressa, ou para revelá-lo como se fosse uma experiência primeira” (CLARK,OITICICA, 1964-74, p. 62).
À guisa de Introdução, é oportuno enfatizar que pretende-se em pesquisas posteriores buscar conexões com o ‘corpo’ na poética de Lygia Clark e suas possíveis reverberações e/ou desdobramentos no corpo
performativo das artes cênicas. No decorrer de sua trajetória Lygia Clark luta incessantemente para eliminar o objeto de arte que considera coisa do passado, coisa dada ao espectador para decifrá-lo passando
a ser propositora de situações elegendo o corpo como lugar para fundir-se ao coletivo. A artista subverte a própria arte onde o corpo do espectador passa a ser o suporte de suas proposições, o que leva alguns historiadores a denominarem essas manifestações da artista de “antiarte ou arte-terapia”.
É, portanto, um trabalho fronteiriço e apresenta-se como campo aberto onde permanecerá sempre o indizível suscitando novas investigações."

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Baba Antropofágica - Lygia Clarck


Curta metragem registra a "Baba Antropofágica", proposta de Lygia Clark (1920 - 1988) (re)vivenciada no Clark Art Center (CAC), Rio de Janeiro, com Jards Macalé.
Direção e roteiro: Walmor Pamplona. 
Realização: Clark Art Center.
www.lygiaclark.org.br
www.clarkartcenter.com.br

Trabalhos - Franklin Cassaro

http://cargocollective.com/franklincassaro

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

O corpo em contexto na contemporaneidade

O corpo em contexto na contemporaneidade: entre o público e o privado nos videos “entre” de Nina Galanternick e “desenho-corpo” de Lia
Chaia 

por Regilene Sarzi Ribeiro


"O embate entre máquina (câmera de vídeo) e o corpo (performance do artista) se apresenta como elemento estrutural construtor de linguagem, compreendida para além dos mecanismos de registros de som e imagem, a fim de ser reconhecida como sinônimo de produção midiática que amplia as experiências sensíveis com o
corpo.
Tendo o próprio corpo como materialidade e linguagem artística, os artistas que deram origem à arte do vídeo no Brasil se apropriam dos recursos da máquina, registro e enquadramentos de imagens e sons, para expor seu corpo a discussões estéticas, sociais, culturais e políticas em situações inusitadas, de ataques e intervenções violentas contra o corpo, uma das marcas da Body Art. Somado ao fato de que tais práticas performáticas eram concebidas para serem especificamente registradas pelo vídeo, sem público, denominadas performances sem audiência. Sobre estas performances, afirma Mello:

Diferentemente de outros países que produzem nos anos 1970 performances e body art (arte corporal) muitas vezes em espaços abertos, no Brasil tais manifestações públicas são recriminadas, censuradas, pelo Estado ditatorial. Os trabalhos performáticos são realizados, dessa forma, em caráter privado, isolados do espaço público, e documentados pela câmera de vídeo (MELLO, 2008: 144)."

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Teaser drum

Franklin Cassaro e a batucada portátil no abrigo bioconcreto


Franklin Cassaro

''Nascido, criado e morado no Rio'' (palavras do próprio), Franklin Cassaro. O analista de Organização e Métodos, cumpriu o itinerário de praxe das artes plásticas e fez cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. E foi à luta, digo, às ruas da cidade para promover seus acontecimentos estéticos, instalações, atos escultóricos, intervenções artísticas ou arte interativa, alguns novos nomes das performances (expressão que o povo das artes acha ultrapassado).



"Franklin Cassaro inventou o bioconcretrismo, termo que conceitua sua arte. Cassaro cria objetos vivos, que se modificam e estão em constante evolução. Elementos como o ar e o vento são fundamentais em muitos de seus trabalhos. As performances do artista surgem como atos escultóricos. Sua obra possui muita influência de Lygia Clark. Os objetos “infláveis” do artista acolhem o espectador no seu interior desabitado e vazio. Esteve presente na VII Bienal de Havana, Havana – Cuba, 2000."


Franklin Cassaro é um dos principais artistas surgidos na década de 90. A sua geração retomou o fio experimental tão característico da arte brasileira nos anos 60 e 70. Ele tomou a obra de Lygia Clark como um ponto de partida. Não é o único, mas o principal. Interessa, acima de tudo, os processos de formalização e não o objeto em si. A precariedade e a contenção irmanam-se. O gesto escultórico de Cassaro não se esconde na forma, ele é a própria forma, que se revira, se desfaz e se refaz continuamente. Os seus reviramentos, infláveis e performances, revelam uma forma-processo que não se deixa cristalizar, que não pára de germinar einventar novos organismos poéticos, ao mesmo tempo estranhos e sensuais.
Diferentemente de Lygia Clark, a motivação não é terapêutica, não parte de uma tensão diante dos mecanismos de recalque do corpo-expressivo, mas de uma vontade de disseminar uma informalidade existencial que nasce do exercício experimental. O interior da “casa-corpo” de Lygia Clark não oferece abrigo, mas resistência. Os “infláveis” de Cassaro acolhem o espectador no seu interior desabitado e vazio.  
Nos seus desenhos atuais, a respiração dá o ritmo do movimento e as mordidas produzem o rastro gráfico no papel. A tinta é colocada antes das mordidas e ela vai se espalhando e criando suas formas bioconcretas. A impressão destes desenhos é quase arqueológica, como se fossem fósseis de borboletas ou peixes pré-históricos. O desenho, assim como suas esculturas revirando latas e metais, nasce do seu gesto que combina precisão e urgência.
Os infláveis erguem-se como se fossem abrigos momentâneos. Sua estrutura é de vento, criando formas transitórias e passageiras, como a própria vida. Esta mesma leveza evidencia-se nos cubos flutuantes, um dos momentos mais líricos do seubioconcretismo. A simplicidade a serviço da surpresa.
Luiz Camillo Osorio, Março de 2006.

Franklin Cassaro, Rio de Janeiro, 1962, formado em Administração de Empresas e Analista de Organização e Método, estudou escultura na Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Possui trabalhos e nos acervos do MAM Rio, MAM SP, Museu Nacional de Belas Artes e Coleção Gilberto Chateaubriand, entre outros.

Suas primeiras exposições individuais foram, em 1988, na Galeria Macunaíma, Funarte, RJ, e no MAC, São Paulo. Desde então, Cassaro realizou exposições individuais em diversas capitais brasileiras e na Alemanha e Austrália. Participou de dezenas de exibições coletivas no Brasil e no exterior, incluindo a Bienal do Mercosul, Porto Alegre, 1999 e a Bienal de Havana, 2000.


2002 - foto: Pedro Agilson